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Cheiro de vida

Não é por acaso que as igrejas têm escadarias na sua frente. Tirando alguns casos que são ocasionados pela topografia do terreno, as escadarias …

Não é por acaso que as igrejas têm escadarias na sua frente. Tirando alguns casos que são ocasionados pela topografia do terreno, as escadarias servem de metáfora da vida. Ir degrau a degrau até atingir a Casa de Deus. E é uma metáfora adequada à vida. Na escola, na faculdade, vamos cursando cada disciplina até atingir a graduação. Em uma viagem, vamos quilômetro a quilômetro até chegar ao destino. Um prédio é construído tijolo(ou pré-moldados, que seja) a tijolo. Vivemos dia após dia, alguns com tempo bom, outros com tempo ruim. E a metáfora vai sendo ampliada, incluindo algumas variáveis. Um relacionamento é uma construção delicada, feita cuidadosamente(ou não) por quem está dentro dele. Por um movimento errado, pode-se por tudo a perder. A construção vem abaixo.

Então é assim a vida. Portanto, me preocupa por demais esta sociedade do instantâneo. Como se a vida pudesse ser vivida no clique do mouse. Recortando e colando sem parar. Não. A vida é feita de acertos e erros. E temos que aprender a viver com os erros que cometemos, não há como deletá-los como se estivéssemos no computador ou no tablet. Existe expressões que com acerto falam da vida, quando encontramos problemas: “Terei que mascar este fumo.”; “Tens que chupar esta manga.”. São expressões que referem-se à velocidade das coisas. Mascar o fumo ou chupar a manga demandam tempo. A pessoa vai ter que administrar o problema. Talvez conviver com ele. E, principalmente, saber-se falível. Ou vulnerável.

Porque além da falsa ideia de que a vida pode ser instantânea como o macarrão ou o bolo de caneca da propaganda, a vida virtual nos dá uma sensação de invulnerabilidade, já que tudo pode ser corrigido ou refeito. Ou seja, temos superpoderes. E sequer temos a kriptonita a nos ameaçar. Somos os bacanas, os caras.

As pessoas estão vivendo esta fantasia, este delírio, como se a vida fosse de fato assim. Porém, quando se deparam com as inevitáveis frustrações e baques da existência, entram em desespero ou em choque. E tome medicamento para que a pessoa não sofra(hoje em dia, é proibido sofrer, como se fosse possível. Em caso de sofrimento, tome fluoxetina ou qualquer medicamento da alegria), para que ela viva num mundo antisséptico e inviolável às frustrações.

Mas uma hora a vida vem e cobra alguma conta atrasada ou mesmo nos apresenta um acontecimento da linha do imponderável. Coisas que são – pelo menos aparentemente – sem sentido e razão, nos caem sobre a cabeça. E então? Qual tecla que procuro? Onde eu clico? Não. Aí é o vazio de soluções mágicas. É preciso respirar fundo, ir organizando as ideias, sabendo que muitas são as perdas ao longo da vida, que o tempo é o senhor da razão.

Enquanto escrevo, penso em que podemos estar criando uma geração, ou ao menos bilhões, de desesperados.  Quando o sofrimento vier – e ele virá, em menor ou menor dose, mas é certo que virá – teremos despreparados e desesperados, palavras muito parecidas e que neste caso andarão de mãos dadas. Sentirão a dor mais funda e forte do que ela de fato é, se desorganizarão mais do que o necessário.

Me perguntarão, então: bem, qual a solução. Não sou oráculo, mas indicaria um caminho: exposição aos solavancos desta vida, desde cedo. Porque o couro da gente vai ficando mais curtido, se a situação se apresenta difícil, podemos ter vivido este filme antes, o que facilita achar o caminho da saída. E seguir vivendo a vida. Que é maravilhosa, apesar de difícil. Não há nada que supere a alegria de um amor. O sorriso de um filho, um abraço apertado e um beijo da pessoa amada quando chegamos de volta de uma viagem. Amigos. Ver a natureza em sua resplandecência. Sentir, como diria o pessoal de uma banda de Porto Alegre, dos anos 80, Cheiro de Vida. 

Autor

Flavio Paiva

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