Daniel Galera: “A primeira palavra que li, aos 4 anos e pouco, foi Sucrilhos. Vivemos em um mundo entupido de marcas e publicidade. Se concordamos que esta é uma das substâncias básicas da vida moderna, somos forçados a concluir que é impossível escrever ficção contemporânea realista sem personagens que adotam ou rejeitam determinadas marcas e produtos. Depois de dizer que um personagem usa camiseta com o logotipo da Dolce & Gabana no peito, não precisamos dizer mais nada sobre ele.” O Galera que me desculpe, mas me parece que, no entusiasmo, se enganou redondo. Veja, se um personagem se esgota na marca da camiseta que usa, não estamos diante de um personagem e sim de alguma coisa menor que a caricatura mais tosca. O que importa sobre uma pessoa se passa dentro da cabeça da dita cuja e nem sempre se torna gesto fotografável ou interpretável. Uma imagem construída pela publicidade é fugaz e inconsistente. Conheço várias pessoas que usam jeans. Elas têm pouca coisa em comum, fora os jeans, que usam por motivos diferentes na maioria das vezes. Nem os milicos, que andam fardados e se esforçam, são iguais entre si. Enfim, aceitar na boa o que nossos olhos percebem não é uma atitude muito realista, ou você não jura que o mágico serrou mesmo a mocinha coxuda dentro do baú? Eu não tenho a menor ideia do que seja Dolce & Gabana. Nem tenho interesse em descobrir. Daqui a uma ou duas décadas, Dolce & Gabana talvez seja apenas a nostalgia de alguns, como a embalagem e o sabor do Biotônico Fontoura são hoje pra uns velhotes como eu. Então, como ficamos? Dê-lhe notas de rodapé pra explicar o dialeto pitoresco do autor. Literatura comprometida Borges: “Eu tinha entendido que havia apenas boa e má literatura. Isso de literatura comprometida pra mim soa a mesma coisa que equitação protestante”. Paulo Hecker Filho Me deram muito poucos conselhos, em matéria de literatura. Ou, se deram, não ouvi. Mas uma observação do Paulo Hecker Filho ficou me martelando por anos, até que entendi: “Não se contente em ser apenas brilhante”. Na mosca Bráulio Tavares topou, num artigo de Keith Ridgway no The New Yorker, com o trecho transcrito abaixo. Bráulio não sabe quem é o cara, eu também não, mas sabemos que ele acertou na mosca: “Todas as decisões que eu aparentemente tomei, sobre enredo, personagens, onde começar, onde parar, na verdade não foram decisões. Foram soluções conciliatórias. Um livro é algo esculpido num bloco de esperança, e quando começo a cortar meus dedos eu o afasto para longe, para tentar descobrir como é que os outros o veem. E espero, com terror, o julgamento dos outros, julgamento que me parece injusto, seja positivo ou negativo, porque estão julgando algo que na realidade eu não fiz. Estão julgando algo que me aconteceu. É como sair me arrastando de dentro do carro após um acidente na estrada e ser saudado por um corpo de jurados erguendo painéis com suas notas de avaliação”. Michel Laub Tenho lido as crônicas dele com prazer. A inteligência sempre me dá prazer. Robert Louis Stevenson: “Há duas obrigações a todo aquele que se arrisque no mundo da escrita: fidelidade aos fatos e vigor no tratamento”. E: “Em todo relato há apenas uma maneira de se mostrar inteligente, e é sendo preciso. A vivacidade é uma virtude secundária que pressupõe a primeira; pois produzir vividamente uma impressão falsa nada mais é que tornar mais conspícuo o fracasso”. Oração do escritor Oxalá eu nunca precise escrever a palavra oxalá.

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