O país tremeu na semana passada e ao que tudo indica seguirá tremendo. Não é mais o mesmo, no melhor sentido. Tenho um grande receio. A mania do brasileiro de rir e fazer piada de tudo(confundida com serem os brasileiros um povo “quente”) pode ser um veneno nas grandes mobilizações que ocorreram nas ruas do Brasil. Porque se começarem a fazer piadinha, os políticos entenderão que o povo não está levando a coisa tão a sério assim. E que podem(os políticos) deixar pra lá. Não dar a devida importância a um protesto que, nas últimas décadas, foi o mais assombroso urro das ruas da história do nosso país, quiçá do nosso continente.
Tenho visto pipocar aqui e ali, seja em charges de jornais, seja em redes sociais, as primeiras piadas sobre a mobilização. E tenho visto preocupado. Porque se começarmos a rir de coisas tão sérias, por que os políticos as encararão como sérias? Eles certamente vão rir também. Recebo muitas piadas por email. Em várias delas, há ou a citação aberta ou subentendida de que “político é assim mesmo”, que “brasileiro faz graça de tudo”, que “nós não temos jeito, mesmo”. Esta linha de raciocínio e ironia dá uma ideia de que as coisas são assim porque são. Que nossa capacidade de mudança é extremamente limitada e que, ao fim, nem vale a pena fazer esforços de mudanças, pois o Brasil, o povo e os políticos são assim mesmo e jamais deixarão de ser. Pra que protestar, então? Se vamos retornar ao começo?
Portanto, acho que o momento é da mais extrema seriedade. Gravidade. Reflexão. E, se as coisas forem assim tratadas, de mudança. Para melhor. Para um Brasil mais digno para todos nós. Porque confesso que eu havia perdido as esperanças neste país. Achei que os políticos poderiam fazer o que quisessem e o povo seguiria apático, achando tudo uma grande festa com pagamentos em várias parcelas. Ainda bem que eu estava errado. Porque foi plantada a semente para uma grande mudança. Temos que cuidar bem dela, pois a árvore que dela nascerá será muito forte e sólida, mas até que crie estatura, precisa de cuidados.
Os povos “acusados” de frios como os ingleses, os alemães e os americanos, o são muito mais quentes do que nós. Eles não deixam seus cidadãos à míngua. Não matam seus habitantes em filas e esperas em hospitais e postos de saúde. Não têm apenas 0,6%(isto mesmo, o número é inacreditável) de suas escolas funcionando completas, como é o caso do Brasil. Lá, eles podem sair às ruas, sem medo (e ter de fato, como já me aconteceu por três vezes) de ter uma arma apontada para si. Ou de serem agredidos, estuprados, mutilados. (As crianças brasileiras estão perdendo cada vez mais as ruas, em função da violência). Eles, em seus países frios, têm sistemas de saúde, educação, transporte e segurança que funcionam. E, pasmem para esta frieza toda, são acessíveis aos estrangeiros também.
Naturalmente que são países que têm problemas, como todos os países o têm. Porém, naquela velha máxima(diferença entre remédio e veneno está na dose), a diferença está na dose dos problemas e como os encaram e resolvem. Eles não ficam fazendo graça de seus problemas, não. Sentam, discutem, planejam e resolvem. Muito frios, realmente. Melhor ficar fazendo piadinhas de como somos roubados, de como somos “alegres”(considero que estejamos mais para bobos alegres), de como podem passar a mão na nossa bunda(ou chutar o nosso traseiro, como disse o representante da Fifa por conta da organização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil) e ainda assim, achamos uma graça danada.
Humor é algo maravilhoso. Bom humor, idem. Porém, pensando em humor, ele tem o momento certo. E o momento não é este. Não vamos fazer graça agora. Vamos com cuidado. Quem sabe nós, cidadãos brasileiros, sendo sérios agora poderemos voltar a sorrir em um futuro próximo?

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