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Ernani Ssó: profissão, escudeiro

Luiz Gonzaga Lopes fez uma entrevistinha comigo sobre a tradução do Dom Quixote para a Penguin-Companhia das Letras. Como Luiz Lopes não aproveitou nem …

Luiz Gonzaga Lopes fez uma entrevistinha comigo sobre a tradução do Dom Quixote para a Penguin-Companhia das Letras. Como Luiz Lopes não aproveitou nem metade do que eu disse, devido às características telegráficas do Correio do Povo, pedi licença a ele pra transcrevê-la aqui com alguns pequenos ajustes. Também pesou nisso mais dois fatores fundamentais: preguiça de escrever uma nova coluna e falta de vergonha na cara de pegar uma carona na hora de divulgar o grande livro de Cervantes. Pra completar, há a simpatia do entrevistador, que beira às raias do delírio. No seu blog, Textostelona, onde também saiu a dita entrevista, Luiz Lopes se refere a meu livro O sempre lembrado como “um clássico”. Chocado, me olhei no espelho e perguntei: “Espelho, espelho meu, há por aqui alguém mais clássico que eu?”. Temendo uma resposta em ordem alfabética, saí correndo do banheiro. Perdão, leitores.

1 – A decisão de encarar a hercúlea tradução de Dom Quixote se deu por qual motivo?

Eu amo esse livro. E, como ele é de leitura difícil por causa da linguagem arcaica, sempre sonhei em poder lê-lo sem ter de consultar o dicionário de três em três linhas. Quer dizer, tratei de achar uma editora que me pagasse a tradução pra eu poder ler depois descansadamente.

2 – Em que aspecto Ernani Ssó foi um fiel escudeiro de Cervantes nesta tradução de Dom Quixote?

Em vários aspectos, e todos perigosos. Primeiro: Cervantes é de uma fluência extraordinária, mas se você traduzir literalmente, o texto fica desconexo e arrastado, porque a construção da frase, a pontuação, que funcionam em espanhol, quase nunca funcionam em português. Então tive de achar o ritmo e a voz de Cervantes em português. Ou pelo menos o ritmo e a voz que me pareciam mais adequados.

Segundo: o humor. Cervantes ataca em vários níveis: cenas, jogos de palavras, ditados, descrições irônicas, alusões. Se você não tratar disso tudo, frase a frase, caso a caso, às vezes até tendo de recriar, a graça se perde. Não penso que o tradutor tenha de ser humorista pra enfrentar Cervantes, mas se ele não tiver noção nenhuma de humor, o Quixote vai passar mal, como ficou tristemente demonstrado na tradução mais publicada no Brasil, a dos viscondes de Castilho e Azevedo, que só conseguem ser engraçados involuntariamente, com alguns erros bizarros. Pra mim era um ponto de honra que Dom Quixote se mantivesse engraçado em português. Que sentido teria apresentar um dos grandes livros de humor, talvez o maior, sem seu humor?

Terceiro: legibilidade. Dom Quixote foi best-seller no seu tempo. Era lido por qualquer pessoa medianamente alfabetizada. Hoje, é um livro difícil inclusive pros espanhóis, porque nesses quatrocentos anos a linguagem mudou muito. Palavras perderam o sentido, ganharam outros, se tornaram pomposas, ou ridículas, ou obscuras. Então, uma das minhas batalhas foi manter o texto com um ar antigo sem que isso atrapalhasse a compreensão do leitor comum. Se um pajem entendia Cervantes há quatrocentos anos, por que um estudante de letras deve ter dificuldade hoje?

Entenda-se: quando falo em compreensão, não digo apenas que o leitor não precisa consultar o dicionário a todo momento. Pegue-se a palavra porqueiro ou porcariço, por exemplo. Cervantes não a usa pra fazer graça, porque é ridícula. Ela era neutra naquele tempo. Cervantes apenas informava a profissão de um homem. Hoje essa palavra chama uma atenção indevida na frase. Daí eu preferir um termo mais incolor como guardador de porcos. Há dezenas e dezenas de palavras que hoje seriam compreendidas num clima completamente diferente da intenção original. Não foi nada fácil lidar com elas.

Enfim, acho que os aspectos principais são esses.

3 – Como um tradutor deve se portar com as características de um texto (a saber, escrito em espanhol no início do século XVI) como este ou de um Shakespeare para não truncá-lo ou simplificá-lo em demasia?

Como pode se ver pela resposta anterior, a fidelidade ao texto original se refere menos ao sentido direto, ao sentido informativo, digamos, que ao sentido que vem embutido na linguagem, no ritmo, na atmosfera, na sonoridade. Então, é muito menos o que Cervantes ou Shakespeare disse e muito mais como Cervantes ou Shakespeare disse. É preciso achar na língua da tradução o ponto mais próximo desse como disse. Um tradutor não pode ser um burocrata. Ele tem que ter ouvido, astúcia e bom senso, matérias, temo, que dificilmente se ensinam nas aulas de tradução.

4 – Outra pergunta com elementos da questão anterior. No livro A tradução literária, Paulo Henriques Britto aborda duas estratégias a partir da dicotomia estabelecida pelo alemão Friedrich Schleiermacher sobre os métodos de tradução — a domesticação ou a estrangeirização. Qual a tua opinião sobre o ato de traduzir a partir desta premissa?

Eu sou pela domesticação, o que, evidentemente, não quer dizer que eu vá botar Sancho Pança ou dom Quixote falando como personagens de Nélson Rodrigues ou cantando um samba do Noel Rosa. O território da linguagem é vasto. Quanto mais o tradutor o conhecer, melhor, claro.

Diante de uma expressão ou de uma frase mais complicada, eu primeiro trato de compreender e em segundo lugar me pergunto: como nós, brasileiros, dizemos isso? Há uma cena no Quixote em que a mulher de Sancho diz pra ele mandar muito dinheiro, que daí ela mandará o filho “vestido como um palmito”. Sérgio Molina traduziu literalmente essa expressão. É uma bela estrangeirização, não? Eu modestamente preferi botar o filho do Sancho endomingado, porque não me sinto à vontade quando vejo a língua original sob cada frase. Na verdade me irrito. Eu, que tenho um péssimo ouvido pra música, tenho um ouvido bem sensível pra língua. Então prefiro espanhol ou português, jamais portunhol. Ou essa mistura com o inglês que andam fazendo até em livros. Por exemplo, na tradução do Quixote, eu não dei “o meu melhor”, eu dei “o melhor de mim”.

5 – Quando o Ernani Ssó tradutor dará novamente lugar ao escritor? Há algum novo projeto chegando à luz? 

Ano passado saiu, pela Edelbra, No escuro — Sete histórias tenebrosas de bruxa. Agora, em julho, deve sair o segundo volume com mais sete histórias tenebrosas.  Sim, é pra criança — e pra adultos que se lembram da infância. Uma mistura complicada de terror e humor. Em fevereiro saiu, pela Artes & Ofícios, Diabos, ogros e princesas. São quatro contos de fadas. Eu sou louco por contos de fadas desde sempre. Enquanto isso, escrevo um romance pra adultos, com outra mistura complicada, sexo e morte narrados com humor. Note: com humor. Gostaria que o livro ficasse engraçado sem ser uma comédia, diferença que me parece essencial. Vamos ver no que dá.

6 – A pergunta sobre a importância da FestiPoa Literária para a literatura do RS é imperativa e por este motivo está sendo feita agora. Solte a voz, caro “sempre lembrado” Ernani.

Eu, sempre lembrado? Ao contrário, sou o escritor gaúcho menos lembrado. Talvez com razão.

Quanto à FestiPoa, a importância começa no nome, que lembra festa, festival. A literatura, como disse Borges, é uma das formas da felicidade. Vamos deixar então a chatice e a solenidade pros chás da academia e outros velórios.

Autor

Ernani Ssó

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