Colunas

Palavras pro amor

Cópula. Segundo o Houaiss, do latim liame, laço, ligação, encadeamento. Muito bom. Mas por que é uma palavra ridícula? Cópula me lembra nome de …

Cópula. Segundo o Houaiss, do latim liame, laço, ligação, encadeamento. Muito bom. Mas por que é uma palavra ridícula? Cópula me lembra nome de alguma peça mecânica: já atarraxou a cópula do êmbolo? Coito. Do latim, ação de juntar-se, unir-se. Não é uma palavra ridícula, mas é feia, não? Meio ameaçadora também. Não é por nada que coitar é causar sofrimento, aflição, desgraça. Conjunção carnal. Sim, o jurisdiquês é uma língua muito pitoresca e evasiva. Pra mim, conjunção carnal é quando o açougueiro pendura um pedaço de porco e um de boi no mesmo gancho.

Casamento gay

Leio que Dominique Venner, o escritor e historiador francês, dizem que de extrema-direita, se matou em protesto pela legalização do casamento gay. Sei não. Se Venner tivesse optado por uma greve de fome, vá lá, mas se matar em protesto é coisa de monge budista com um galão de gasolina, lembram? A inutilidade do gesto — inclusive comemorado pela comunidade gay, à espera de que outros do mesmo naipe do Venner sigam o exemplo — só demonstra que o homem era um imbecil chapado, ou que já estava gagá, ou seus motivos eram mais desesperados e profundos. Ele tanto podia andar com problemas com a seratonina como temer, com a legalização do casamento gay, que algum bigodudo o pedisse em casamento e ele, em vez virar a cara com desdém, dizer sim, sim, sim, o coração descompassado de amor.

Da seriedade nos velórios

Julio Cortázar, numa carta a Eduardo Jonquières, de 10 de janeiro de 1960: “E Federico Peltzer, Prêmio Kraft, quelle barbe! Me diga uma coisa: por que na Argentina parece que as coisas interessantes são desprezíveis? A confusão entre profundidade e chatice é quase unânime, de Mallea pra frente. Como não se dão conta de que Arlt, como Dostoievski ou Balzac, combinava perfeitamente o interesse e o suspense contínuo com a máxima latitude em sua novelística?”.

O humor para Campos de Carvalho

“Significa o auge de qualquer ficção ou de qualquer outra arte, no sentido de sublimação do sublime, da efervescência do fervor ou da originalidade do original. É um passo à frente de qualquer vanguarda, que se arrisca ao hermetismo da própria linguagem, ao desconhecido, ao inefável.”

Mistura braba

Vi um pedaço de uma comédia romântica com Julia Roberts e Tom Hanks. Como um diretor tem coragem de misturar esses dois? Melhor servir logo mocotó com merengada.

Woody Allen disse

“Ninguém sabe o que é a realidade, mas ainda é o único lugar onde se come um bom bife.” Como cineasta ele mal me faz cócegas, mas depois dessa frase ganhou meu respeito.

Tradução, brasa em meus miolos

A primeira frase de Lolita, do Nabokov, na tradução do Jorio Dauster: “Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne”. Na tradução do Brenno Silveira: “Lolita, luz de minha vida, fogo de meus lombos”. Sem comentário.

Por falar em tradução

Tenho recebido um bocado de elogios pela tradução do Quixote. Alguns tão hiperbólicos — e de famosos medalhões da cultura —, que até fico sem jeito.  Vai daí, venho a público fazer um esclarecimento e um apelo. Meu ego agradece, penhorado, mas minha conta bancária continua no vermelho. Preciso de trabalho. Eu preferia dinheiro, sem incomodação nenhuma. Agora, como isso não vai sensibilizar ninguém, peço trabalho. Olhaí, editores. Me ajudem, porque tenho de sustentar um vício tenebroso, três refeições por dia.

Autor

Ernani Ssó

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.