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Maigret e o gay

Melhor não fazer contas nestas alturas, mas eu devia ter uns catorze ou quinze anos quando topei com George Simenon em edições da Difusão …

Melhor não fazer contas nestas alturas, mas eu devia ter uns catorze ou quinze anos quando topei com George Simenon em edições da Difusão Europeia e da Coleção Amarela, da Globo. Não fiquei deslumbrado. Só muito mais tarde me dei conta de que aquele texto fácil e simples lidava com coisas nada fáceis nem simples. Agora, me dei conta, de saída, da atmosfera dos livros do Simenon e dos personagens mais nítidos que os de outros romances policiais. Pelo visto eu não era completamente bobo. Fui conquistado pra sempre com um conto, “Maigret e o fugitivo”, que se chamou, na edição dos contos completos pela L&PM, “O homem na rua”. Ainda hoje acho sensacional.

Lembro que li Maigret no Picratt’s nessa época. Depois alguém me afanou o livro. Agora, acabo de reler, na edição da L&PM. Não me lembrava de nada, fora o título. Simenon é muito bom, mas não como um Kafka, por exemplo, que, uma vez lido, fica tatuado na gente. Daí que tive uma surpresa.

O primeiro capítulo é bem ruinzinho, com diálogos forçados, dignos de um amador. Depois, aos poucos, o livro acerta o passo. Eu leio tudo do Simenon, mesmo os livros ruins, porque até nos ruins algum personagem ou alguma situação salva a pátria. É provável que eu não fosse tão brando com ele se os livros tivessem quinhentas páginas.

Mas vamos ao que interessa. Qualquer leitor mediano percebe que o comissário Maigret tenta entender as pessoas, não importa se forem ladrões ou assassinos. Ele tenta sentir como elas. Ele tenta se pôr no lugar delas. Ele sempre detecta algum traço de humanidade. Daí, muitas vezes, nasce a compaixão pelos piores criminosos.

É justamente nisso, cantado em prosa e verso pelos críticos, que Maigret falha no Picratt’s. No interrogatório de um drogado homossexual, ele nem tenta se pôr no lugar do sujeito. Há nojo, desprezo. Mais: não bate nele porque pensa que ele gosta de apanhar. Daí Maigret passa o suspeito pra outro policial, que age exatamente da mesma forma. Pra encerrar, na hora em que arma uma cilada pro criminoso, há o perigo de o homossexual ser morto. Maigret espera que não seja. Mas se for, bom, azar, não se perde grande coisa.

Não, não estou aqui chamando o comissário às falas, exigindo dele um comportamento politicamente correto. Nunca exigi isso de personagem nenhum. Mas estranho, porque o que diferencia o comissário dos demais é justamente esse negócio de entender e se compadecer. Outra coisa que acho estranho é que o outro policial tenha exatamente a mesma reação, que é descrita inclusive com as mesmas palavras. Era de se esperar reações diferentes, contraditórias. Seria melhor literatura, não? Assim só parece um libelo.

A cura gay

O pastor Feliciano sonha com a cura gay. Eu, mais audaz, sonho com a cura da burrice.

Academia de letras

– Aos vinte anos – dizia Afrânio Peixoto –, todos os escritores são con­tra a Academia, atacando-a furiosamen­te; aos trinta, todos são candidatos; aos quarenta, alguns são acadêmicos.

Não é verdade. Muitos escritores, como eu mesmo, não levam a Academia a sério a ponto de necessitar atacá-la com fúria. Seremos candidatos e, eventualmente, acadêmicos apenas se ficarmos gagás. É uma fatalidade, sabe-se.

Academia ainda

Convidado pra Academia, Capistrano de Abreu declarou que lhe bastava pertencer à sociedade humana, para a qual entrara sem ser consultado. É. Preciso ler alguma coisa desse senhor.

Mais uma do Capistrano

Um amigo, que pede pra não ser identificado, me diz que ele sugeriu apenas dois artigos pra Constituição: “1. Todo brasileiro deve ter vergonha na cara. 2. Revogam-se as disposições em contrário”.

Trauma e simpatia

Como tenho uma experiência traumática com críticos e resenhistas em geral, ajo com cautela: antes de comprar o livro belisco em tudo quanto é jornal, à espera de que citem trechos. Se não citam, me bate a paranoia, tenho certeza de que estão tentando me vender o proverbial gato por lebre. Aí corro pra uma livraria, pego o livro e leio os primeiros parágrafos, depois alguns trechos ao acaso. Se o santo do autor cruza com o meu, trato feito. Não é uma questão de qualidade literária, me entendam, ou só de qualidade. É de simpatia. Pura e simples simpatia.

Autor

Ernani Ssó

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