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Anotações pra um manual de etiqueta fúnebre

Fulano morreu ou faleceu? Não sei se é apenas impressão minha, mas a palavra falecer soa mais solene, talvez mais amena ou respeitosa. Ou …

Fulano morreu ou faleceu? Não sei se é apenas impressão minha, mas a palavra falecer soa mais solene, talvez mais amena ou respeitosa. Ou mais fresca? O certo é que em português há uma série de expressões populares pra dizer que o sujeito capotou. Sim, como capotar. Todas nada solenes, às vezes muito engraçadas: bateu com as dez, deu com o rabo na cerca, partiu desta pra uma melhor, está comendo grama pela raiz, saiu com os pés pra frente, foi pro beleléu, apagou, vestiu o pijama de madeira, abotoou o paletó, desinfetou o beco, esticou as canelas ou os cambitos ou o pernil, foi pra cidade dos pés juntos, foi pro andar de cima, foi encontrado com a boca cheia de formiga e, minhas preferidas, entregou a rapadura e apitou na curva. Há medo atrás do riso? Pode ser. Mas acho isso melhor que ser solene. Nessas alturas, já devíamos ter aprendido a encarar a morte com naturalidade.

Robert Louis Stevenson

“No lixo que sem dúvida vocês normalmente leem, um vasto número de pessoas serão baleadas, esfaqueadas e afogadas; e vocês receberão um mínimo de excitação pelo dinheiro. Mas se você quer saber o que um assassinato é de verdade — ter um assassino trazido para sua casa —, precisa ler o trabalho de um grande escritor. Leia Macbeth, por exemplo, ou, melhor ainda, peça que alguém leia em voz alta para você. Prometo que vai experimentar o que as pessoas chamam de ‘uma sensação’.”

Pobre Stevenson. Imagina ele no cinema, hoje. Em poucos minutos temos mais pessoas baleadas do que em romances inteiros do tempo dele. A emoção causada por essas mortes é tão profunda quanto o prazer de comer pipoca.

Stevenson e o tédio

Stevenson diz que as narrativas fazem a vida parecer mais detestável, maravilhosa e heróica. Os escritores deixam o tédio de fora. Aspas pra ele: “Imagine que alguém encomendou um relato completo de seu dia na escola. Você provavelmente começaria dizendo que acordou a uma determinada hora, se vestiu e foi para o colégio de manhã. Não pensaria em informar quantos botões teve de abotoar ou quantos degraus desceu na escada. Qualquer pirralho teria muito do que chamamos de ‘tato literário’ para fazer isso. Muitos detalhes simplesmente deixam o leitor entediado”.

Se essa constatação era de um bom senso à prova de balas em pleno século dezenove, por que tem gente, hoje, embasbacada com o descritivismo minucioso de um Daniel Galera, por exemplo? Eu não estou nem aí pro número de degraus que um personagem teve de subir ou descer, ou se o nariz dele é batatudo ou em forma de gancho, a menos que isso seja uma informação capital ou pra atmosfera da cena ou pra compreensão do enredo ou do personagem. Em literatura, a sensação de realidade é forjada com a lógica interna da história, com detalhes significativos e uma psicologia sem simplismos.

De que cor eram os olhos da Capitu? Eles seriam mais ou menos de ressaca se fossem azuis ou pretos, verdes ou castanhos? Entre as exigências da literatura e de um retrato falado pra polícia há uma certa distância.

Por falar em detalhes significativos, nunca esqueço Graham Greene. Em vez de encher páginas e páginas pra nos dar a exuberância dos trópicos, ou livros de oitocentas páginas como os gringos gostam, ele fala do cheiro de uma goiaba podre. Até o tropical García Marquez aprendeu isso com o inglês.

Paixão pelas palavras

Quando um escritor se apaixona por uma palavra, ele é capaz dos contorcionismos mais abjetos pra usá-la. O diabo é que aí ele relê as frases em que a desgraçada da palavra aparece e se sente inebriado. O diabo é que qualquer leitor mediano se dá conta e acha graça, como acha graça da elegância do camarada que pinta o bigode de acaju ou penteia os cabelos da lateral por cima da careca. Quase sempre a palavra amada é um adjetivo luxuoso, coruscante, exótico. Na certa eu tive minhas paixões, mas estou há quinze minutos tentando lembrar de uma e nada, fora por palavras do tipo escalafobético, ingresia, bafafá, pandarecos. Sei que me senti atraído desde cedo pela linguagem coloquial, xodó que permanece até hoje.

Eu não tinha vergonha de escrever. Tinha era vergonha de ler em voz alta o que escrevia. Se o texto ficava muito bonitinho ou enfeitado, eu tinha vontade de sumir. Aquilo me soava afetado, falso. Eu jurava que falava com uma batata na boca. Pior, sentia um calorão danado e coceiras em partes remotas, de difícil acesso em público. Só um idiota, me parecia, não notava que as palavras não revelavam pô nenhuma, apenas encobriam o vácuo. Daí meu interesse pelo humor como forma de cutucar as palavras de perto pra ver se rosnam ou arrulham.

Autor

Ernani Ssó

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