Ame o próximo como a si mesmo? Tenho dúvidas atrozes, não só porque há muita gente autodestrutiva ou com vaidades, digamos, pitorescas. Me parece que amar ao próximo como a si mesmo pode ser um incentivo à masturbação. Vou consultar o pastor Feliciano, exímio intérprete de passagens obscuras da Bíblia, que, por sinal, são quase a maioria.
O mundo maravilhoso do MMA
Deu no UOL: “Irmão de Eric Silva supera doença rara com nocaute.” Poxa, esse cara devia abrir um consultório.
Palavras, palavras, palavras
Danúbio Torres Fierro, no Estadão, diz que Guillermo Cabrera Infante foi, como Gertrude Stein, na definição do Sherwood Anderson, um operário da palavra. “Para ele, aliás, a literatura era ‘palavras, palavras, palavras’: o reino da linguagem posto a girar e bailar.”
O que exatamente quer dizer “operário da palavra”? Eu, que lido com as palavras há tantos anos, não tenho ideia. Pior, me soa suspeito, justamente porque literatura ou mesmo jornalismo não é só palavras, palavras, palavras. Mal comparando, chamar um escritor de operário da palavra é como dizer que um construtor é um operário do tijolo. Uma casa não é só um monte de tijolos. Os tijolos estão ali pra criar quartos, salas, banheiros, cozinha, uma varanda pra paisagem. Eles não estão ali por si mesmos. Os tijolos são o meio, não o fim, capisci?
Não nego a importância das palavras. Minha idiotice não chega a esse ponto. Gosto que as palavras sejam agradáveis ao olhar, ouvido, tato, paladar, mas elas não podem estar num texto apenas por isso. Se elas não fazem sentido, se não sustentam fatos e emoções, se não criam personagens, são apenas tagarelice. Se a obra de Shakespeare, o autor da tirada, fosse apenas palavras, palavras, palavras, você não conheceria intimamente um senhor chamado Macbeth, nem sua patroa. Não conheceria as dúvidas do príncipe, nem o encantamento dos namoradinhos, nem sofreria com as figuras cômicas & trágicas de Antônio & Cleópatra, nem saberia da vida do resto do bando, Otelo, Júlio César e — preencha a linha pontilhada.
Se a luta é só com as palavras, concordo com o poeta, realmente é uma luta vã. Mas, se a luta for pela expressão, bom, aí o buraco é mais embaixo, minha nega.
No reino do palavrório
Apenas palavras, palavras e palavras estão magnificamente representadas na frase de um professor paranaense citado pelo Rui Werneck de Capistrano: “A substancialidade icônica ou meio de representação artística do símbolo possui um significado filosófico digno de uma apreciação mais acurada, pois tem o sentido profundo de uma antologia evanescente, virtual, que carrega em si, como num processo quântico, a própria alma da natureza”.
Incidente na biblioteca
Pela manhã, como sempre, eu estava na biblioteca, trabalhando — sim, é um modo de dizer, eu estava na biblioteca imerso num processo quântico, na tentativa de fazer o reino da linguagem alcançar uma substancialidade icônica, girando e bailando no sentido profundo de uma antologia evanescente, mas o desgraçado ficava paradão até que de repente desatava a sapatear como qualquer gaúcho apreciador de chula. Ouvi então umas bicadas na vidraça. Era um tico-tico que tentava pegar uma mosca que estava do lado de dentro. Nem pensei coitadinho. Pensei: que nem nós querendo pegar as bundas na tevê ou comer os pratos do James Oliver, ou os da Nigella Lawson ou a Nigella mesma. Pessoas mais sérias ou sensíveis pensariam em coisas mais sérias ou sensíveis com um significado digno de uma apreciação mais acurada, como a própria alma da natureza. Eu sou um caso perdido. Pior, notei que com os anos se acentuou a tendência de me preocupar com coisas básicas, boa vida sendo a primeira delas.

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