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Virei cínico

Decidi me tornar um cínico contumaz a partir da data de hoje. Isto porque cansei de ver hipocrisia brotando como chuchu na serra gaúcha. …

Decidi me tornar um cínico contumaz a partir da data de hoje. Isto porque cansei de ver hipocrisia brotando como chuchu na serra gaúcha. O pior não é a hipocrisia brotar, mas as pessoas aceitarem – e, ao que tudo indica – gostarem! – de forma passiva. São tantos os exemplos que fica até difícil enumerá-los.

Ontem, assisti ao programa Roda Viva, na TV Cultura, tendo por entrevistado do Ministro dos Esportes, Aldo Rebelo. Pois em perguntas objetivas ele tergiversava. Vinha com dados da década de 40/50, do tempo da construção do Maracanã! Sobre a construção de um estádio em Manaus (conforme dados apresentados a ele no programa, o público total presente aos jogos no estádio existente, somado ao longo do ano não é suficiente para encher o estádio. Se somássemos todos os jogos, todos os presentes, ainda assim não daria um estádio cheio), disse que a cidade merecia a obra. Ora, não se trata de merecimento, mas de viabilidade, planejamento, importância, relevância. O ministro apelava para uma via sentimental e chegou mesmo a perguntar a um jornalista se ele achava que o povo de Manaus não merecia este estádio.

O problema maior não é nem o ministro responder (é uma generosidade chamar de resposta o que ele disse, mas em todo o caso…) da forma que respondeu. O problema é que coisas assim acontecem todos os dias, todas as horas, e tudo segue igual. O povo assiste passivo e, em muitos momentos, aplaude.

Também decidi me tornar um cínico devido à falsidade e fragilidade das relações humanas. Nunca vi tanta gente “feliz”! Uhuuuu! Estão tão felizes que não convivem quando estão juntas e ficam postando a sua “felicidade” nas redes sociais. Que felicidade falsa é esta? Quem está feliz, convive. Não precisa ficar dizendo a todo momento para os outros que está feliz, talvez tentando convencer a si mesmo. Quando um assunto está bem resolvido, ele não é tema. Ele está tranquilo, não precisa vir a todo momento à pauta. Isto sem falar na ditadura da felicidade. É totalmente inaceitável para as pessoas que alguém esteja deprimido ou mesmo entristecido. É preciso, correto e belo ser feliz! E tome fluoxetina! As tristezas fazem parte da vida, servem para a evolução e o aprendizado. Não há como medicar o luto. Ou melhor, há. Aí, o que deixa de existir é a elaboração do luto.

Por fim, não aguento mais inaugurações de obras insignificantes ou que não serão concluídas com pompa e circunstância. E bastante espaço na mídia! Gente, o que foi a inauguração daqueles metrinhos da ciclovia da avenida Ipiranga???? A cidade de Porto Alegre está com várias obras. Ouço então os políticos discursarem que é um mal necessário, para a evolução. Certo em parte. Se passamos pelos corredores de ônibus que estão sendo reformados, a sinalização é ridícula, a contenção dos veículos(para evitar que um veículo caia dentro das escavações que estão sendo feitas) é absurda e o espaço reservado para os pedestres é um salve-se quem puder. Esta é a realidade. Mas então vejo declarações dos mandatários dizendo que a cidade está melhorando, que está progredindo.  E não há voz contrária! As pessoas ouvem tudo isto e calam. E quem cala…

Assim, cheguei à conclusão que estamos na ditadura do cinismo. Só os cínicos sobreviverão. Portanto, como quero sobreviver, virei cínico. Gente, nunca estive tão feliz!!! Vou publicar a foto do café que acabei de tomar no Facebook! Como Porto Alegre está progredindo! E como as pessoas são verdadeiras! Viva a fluoxetina!

POESIA INCIDENTAL

Para que não pensem que me tornei um mal humorado contumaz, vou abrir uma nova sessão na coluna. Chamo de Poesia Incidental. São poesias que venho fazendo ao longo dos anos e que agora resolvi tornar públicas. Espero que gostem. A de estréia se chama Nublado.

NUBLADO

Há dias em que acordo nublado

Melancolia ao lado

E nada adianta

É preciso regar a planta

Da solidão

Mastigar os pensamentos

Voar todos os ventos

Ouvir o coração

Passar um café à tarde

Leituras, músicas, reflexões

Um eclipse sentimental

A falta do principal

Desacorçoo

Sem plano de voo

Sem gás, sem grandes histórias

Nem mesmo as boas memórias

Resgatam da neblina

Não adianta nada nada adianta

Deixa baixar a cortina

De um dia que é assim perdido

Frouxo, desiludido

Desamparado do tempo

 

E quando passar a tarde

Noite cair

Vento vem e leva as nuvens

Anuncia novas paisagens

Para amanhã, quem sabe

Acordar inspiração. 

Março/2013

Autor

Flavio Paiva

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