O cartunista Laerte quer botar silicone: quer seios de mulher. Quanto ao mapa dos países baixos, não pretende mexer numa linha. Me senti triste. Não pelo Laerte. Na verdade, acho admirável que alguém, a poucos passos da chamada melhor idade, quando a preocupação com o ciático e o reumatismo põe em xeque o sentido da vida, tenha ânimo pra se manter na ativa. Me sinto triste por mim mesmo. Compreendi, mais uma vez, como sou uma pessoa primitiva. Meus sonhos e esperanças são rasteiros, coisa de dar dó — quase nunca ultrapassam a ilusão de ganhar sozinho na mega-sena e poder me dedicar à literatura sem ter de me preocupar com o feijão e o arroz de amanhã. Às vezes releio A metamorfose, do Kafka, ou O coração das trevas, do Conrad, mas isso não serve de combustível pra sonhos de glória literária. Estou tão ocupado lutando com meus limites que não me sobra muito tempo nem forças. Aí sabe o que eu faço? Vou passear com o cachorro.
Urubus artísticos
Ferreira Gullar afirma que urubus numa gaiola e um tubarão partido ao meio não são arte, porque gaiolas e urubus e tubarões não foram criados por Nuno Ramos e Damien Hirst, quer dizer, não são linguagem. Então tudo não passa de uma ideia dos tais artistas. Francisco Bosco, em O Globo, argumenta convincentemente que Gullar está errado. Mas e daí? A mim não interessa se esses urubus ou esse tubarão são linguagem e consequentemente arte, no contexto em que estão. A mim só interessa que a única emoção que eu sinto é a do saco cheio com a produção dos Nuno Ramos e Damien Hirst da vida. O episódio mais rotineiro d’Os Simpsons me toca mais.
A arte subterrânea do marketing
Certo, eu implico com quase tudo o que está aí sendo chamado de artes plásticas. A única arte com que eu nunca implico é a arte culinária, desde que não me sirvam mocotó com limonada. Não é estranho, então, que eu passe batido pela obra da Adriana Varejão. Mas digamos que eu gostasse, digamos que eu tivesse grana pra comprar um quadro dela, como eu encararia o diálogo com a visita?
— É um Varejão?
— Sim, como percebeu?
— Um autêntico Varejão é inconfundível.
O nome, o destino
Há quem ache que o nome acaba influenciando o destino da pessoa. Não sei. Mas é inquietante que um médico canadense, de origem portuguesa, tenha sido o cirurgião que atendeu um sujeito que teve o pinto cortado pela esposa, numa noite de acerto de contas. Sim, o sobrenome do médico é Colapinto. No caso da Varejão, o que dizer, já que várias de suas obras são pedaços de carne com mau aspecto?
Mais arte e mais grana
Confesso minha surpresa, coisa vexaminosa nestas alturas do campeonato, não? Eu devia ter o couro grosso, mas a verdade é que sou muito sensível, por qualquer coisa tenho um troço. Não foi diferente ao saber que as obras da Adriana Varejão e da Beatriz Milhazes custam uma nota preta. Sim, milhões. Corri atrás das imagens, pra saber o que estou perdendo.
Vamos a um exemplo simples. Como me emocionar e, por isso mesmo, começar a pensar diante da imagem de uma parede com azulejos da mesma cor com alguns cortes verticais? Bruto, inculto, prefiro a foto da artista, a Adriana Varejão meio pelada, entre umas pedras, numa praia. Mas ainda sou mais o bumbum da Rosana Ferreira, miss idem, com tatuagem e tudo.
Falando em praia, os quadros da Beatriz Milhazes dariam belas toalhas de praia, com aquelas flores todas, aqueles arabescos coloridos. Parecem um pouco as pinturas de uma tia minha que, depois que saiu da fábrica de chita e entrou na menopausa, desejou se expressar.
Li em alguma parte que “há quarenta anos o coração carmim de Jeff Koons parecia decoração de loja de chocolate para Dia dos Namorados”. Como parecia? Críticos e artistas me desculpem, mas não consigo distingui-lo de um coração de loja de chocolate. Aposto inclusive que o Jeff comprou aquele coração em qualquer lojinha. Todo o seu trabalho foi expô-lo.
Um artista ou uma obra em particular pode não nos tocar. Vale nas artes plásticas o que o Borges disse sobre literatura: nem todos os livros foram escritos pra nós. Pela minha experiência, é justamente o contrário: poucos livros foram feitos pra nós. Agora, se fossem, imagina o estrago. Seríamos mais iguais que bolachas na esteira de uma fábrica! O bípede implume é fascinante, não? Sobre um fundo de mesmice tenebrosa, é de uma diversidade que nem a religião, nem o militarismo, nem a arte de vender quinquilharias, combinando seus esforços, conseguiram apagar inteiramente.
Mas há artistas, mas há obras. O coração carmim do Jeff, por exemplo. O fato de ser assinado pelo Jeff, o fato de ser exposto o modifica? No começo do século vinte ele poderia ser uma boa piada. Hoje, na minha opinião, ele tem tanta graça como piada de sogra ou de fanho. O diabo, me digo melancolicamente, é que não sou supersticioso.
Entre quatro paredes
Li várias matérias em que atrizes boazudas afirmam: entre quatro paredes, vale tudo. Será? Cedo ou tarde um dos dois emparedados vai aparecer com mais uma humilhação no currículo ou com um olho roxo ou com alguns dentes a menos ou com perda de sangue por orifícios próprios ou recém fabricados. Adivinha quem tem mais chance de ser essa pessoa?

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