Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.
Implicâncias
Pra rebater minha lista de preferências, Mário Goulart me pergunta sobre minhas implicâncias. Na verdade eu tinha pensado primeiro nas implicâncias, mas deixei pra lá porque falar delas é mais fácil, não? As implicâncias, como o próprio nome indica, estão no terreno do irracional e são folclóricas quase sempre. Quer dizer, a gente nem precisa se justificar.
1. O sorriso da Adriane Galisteu. Cada vez que vejo essa viúva profissional, a burca me parece um aparato dos mais louváveis.
2. Tenho ojeriza à palavra ojeriza. Minha ojeriza por ela só perde pra minha ojeriza às palavras elencar, protagonismo, experienciar e obstaculizar. Me dá uma coisa nos ouvidos, quando as ouço, pior que a pressão na aterrissagem.
3. Também mantenho distância da palavra relva. Talvez seja a palavra mais fresca em português. O dia que eu vir uma placa, numa praça, avisando que é proibido pisar na relva, me mudo de país.
4. Colina e bosque também têm um alto índice de frescura. Tanta gente criada no meio do mato ou cercada de morros e coxilhas vem falar em bosque e colina. Se não é tradutor, é publicitário, aposto.
5. Discurso em formaturas ou de agradecimento a prêmio recebido. Minha nossa, quando metem Deus e a mãe no meio… Nessas horas gostaria de ter um teleporte pra ir sentir vergonha bem longe.
6. Caras que citam Lukács. Posso ter dado azar, mas nenhum sabia do que falava.
7. Cachorro-quente, hambúrguer e coca-cola. Como é que um povo conseguiu a proeza de criar as duas piores comidas e a bebida mais intragável? Como, ainda, conseguiu desenvolver uma estratégia pra poder comer e beber essas porcarias em todos os lugares?
Quer a real? Me enchi desta lista.
Títulos
Nos tempos do Pasquim, o Ivan Lessa e o Jaguar tinham um personagem, escritor, que escrevia um romance chamado Lornhão da bauxita. Grande título. Praticamente imbatível, acho. Mesmo assim andei pensando em alguns:
1. Pavana para um guacamole triste.
2. Via de regra. (Trata-se, evidentemente, de um romance erótico.)
3. O lorpa e outrens.
4. A dama de sobrolho inefável.
5. O façanhudo, o gabola e a virgem.
6. As rubicundas de Anta Gorda.
7. À sombra das pilosas em flor.
8. A pororoca da Candinha.
9. As galochas do finado.
10. Pipilos e arrulhos. (Sonetos.)
11. El fauno y la remolacha.
Talvez eu devesse dar uma de Jorge Luis Borges, um dia desses: escrever resenhas sobre esses livros. Ou melhor: fazer um concurso aberto a todos, menos a membros da Academia Brasileira de Letras, que com essa gentalha não me misturo. Os autores das melhores resenhas receberiam o título Miss Anta Gorda, ou Mister, se for o caso. O diploma seria uma anta gorda desenhada num guardanapo do buteco da esquina, se é que eu consigo convencer algum desenhista a entrar nessa jogada. Veremos.
Bicho de sete cabeças
Escritor não é bicho de sete cabeças, nem a literatura maná que garoa dos céus. Escritor está ali no boteco da esquina falando de futebol e de mulher boa. Literatura é gênero de primeira necessidade, feijão-com-arroz, chope gelado, uma taça de café com pão e manteiga. Se você é chegado a um chazinho com petit sablé, está no lugar errado. Melhor ir à academia, nas quintas-feiras.
Mais bicho de sete cabeças (trecho de carta)
Tenho me divertido amavelmente com a sua descoberta de que é escritor. Lembro que por décadas eu não dizia que era escritor. Dizia, envergonhado: eu escrevo. Mesmo hoje, sem a vergonha, digo apenas que escrevo e ainda me vejo fazendo piada, minimizando o fato, como quem diz: por que o espanto, não é um bicho de sete cabeças?
No fundo acho que o escritor é um bicho de sete cabeças. Não gente que escreve. De gente que escreve o mundo está cheio.

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