Altair Martins, no Rascunho: “Eu sou um pessimista e o pessimismo vai salvar o mundo. Disseram que a beleza vai salvá-lo. Não, vai salvar o mundo o feio. É o pessimismo. A epígrafe do meu novo livro, eu abro um chiclete e está lá: ‘Vamos rir mais’. Achei isso uma ofensa. Rir do quê? Já se ri demais no Brasil. A gente ri demais nesse país, tudo é normal, tudo é tranquilo. Não, é o pessimista que vai salvar o mundo.”
Nunca pensei que fosse concordar com um chiclete, ainda mais num assunto grave como o riso. Sempre que vejo uma pessoa ofendida com o riso, não me sinto ofendido, mas não consigo evitar um suspiro de cansaço. Quando o ofendido com o riso é uma autoridade, um pregador religioso ou político, eu compreendo, afinal eles são alvos, o riso bota em xeque a pretensa seriedade deles.
Mas quando o ofendido é um escritor? Olha, um escritor não tem o direito de não entender o riso. Se não entende o riso, não entende uma porção enorme de si mesmo. Um homem sem senso de humor, sem senso lúdico, é uma aberração, uma espécie de gorila de batina e mitra sentado num trono de ouro. Desde quando não rir torna alguém sério, como talvez argumentasse o conselheiro Acácio? Desde quando cara fechada e voz grave são provas de seriedade? Pode ser apenas dor de barriga e resfriado. Ou pose de gente insegura.
Mais: qualquer médico, ou mesmo um enfermeiro, pode nos dizer da importância do riso no combate à depressão, ao estresse e a desesperos variados. Nem precisa o riso usado como arma pela sátira, pode ser o riso pelo riso, totalmente leviano. Exigir vinte e quatro horas diárias de indignação, de consciência, de preto no branco, me parece perfeitamente maluco. É como exigir que ninguém durma.
“A gente ri demais nesse país, tudo é normal, tudo é tranquilo.” Gozado, pela minha experiência a gente ri pouco de alegria, de prazer puro e simples. A gente ri mais do que está fora de esquadro, nunca do normal ou considerado normal. É também o que dizem os ensaístas que tentaram entender os mecanismos do riso.
Acho que se ri de menos no Brasil, em matéria literária. Os mesmos que todo dia estão nos jornais enchendo o saco com Machado de Assis — ah, o humor do Machado; ah, a ironia do Machado —, na hora de escrever seus próprios livros fecham a cara pra ser levados a sério. E não é que são levados a sério mesmo? A estratégia funciona que é uma vergonha. Nem falemos do jornalismo cultural, que esconde a ignorância, a mediocridade e a falta do que dizer atrás de frases intrincadas, de um tom cinza ratão ou acadêmico e de muitas citações de autores que parecem ter escrito apenas pra serem citados, mas pouco lidos.
Esses dias li, não me lembro onde, que torcem o nariz pro Anthony Burgess porque ele tem uma visão cômica do mundo. Isso na Inglaterra, my God, famosa pelo senso de humor. Talvez, se vendessem mais chiclete por lá, a coisa mudasse de figura.
Eu me recuso a usar cilício porque boa parte da humanidade está fazendo de tudo pra ir pro brejo. Também me recuso a botar cilício na minha literatura. Quem quiser botar, que bote. Só não me peça que eu chore junto.
Eu corro alegremente o risco de não ser levado a sério. Total, o fardão me parece ridículo e aposentei meu espadim aos doze anos, última vez em que brinquei de três mosqueteiros. Nem quero ser nome de rua, como dizia o Quintana, pra não continuar sendo pisado.
Altair Martins se pergunta: rir do quê? Eu me pergunto: Cervantes se perguntou do que rir? Gogol? Rabelais? Swift? Dickens? Shakespeare? Aristófanes? Petrônio? Voltaire? Machado de Assis? Borges? Cortázar? Eu me pergunto ainda: havia algum otimista entre eles?
O pessimismo vai salvar o mundo? Olha, sou mais pessimista que o Altair Martins. Acho que nada vai salvar o mundo, nem mesmo o bom senso. Se o bom senso fosse menos escasso, se não enfrentasse a força arrasadora do irracionalismo somada ao racionalismo a serviço da ganância, talvez o mundo tivesse uma chance. Às vezes fico matutando: quantas pessoas com bom senso eu conheço? São poucas, claro, mas isso não é o pior. A maioria delas são personagens de velhas e bobocas séries de tevê.
Saber enxergar a graça que toda tragédia traz embutida não é pra qualquer um. Saber fixar essa graça num texto, num filme, num quadro também não é pra qualquer um. Mas só porque é difícil, a gente vai se mixar? Ou fazer de conta que não existe?
Gostosas e boazudas
Um amigo tocou num assunto fundamental: como falei em vizinha boazuda, dia desses, ele me perguntou se a palavra não estava muito batida, se não seria melhor falar de vizinha gostosa. Estranhei, porque penso exatamente o contrário, que hoje em dia é gostosa pra lá, gostosona pra cá — não que não sejam as palavras certas em muitos casos. Agora, ninguém mais diz boazuda, ou muito poucos. Mais uma ótima palavra que entrou no limbo. Então aqui estou em campanha pela reabilitação das boazudas. Me ajudem. Boazudas de todo mundo, uni-vos.
Democracia tem hora
Segundo Humberto Cavalcanti, ao comentar uma notinha minha sobre o direito e dever dos cubanos de falar mal de Cuba, defendo a livre expressão e o direito de ir e vir em abstrato, como se vivêssemos num mundo paradisíaco. Vai daí, não sou democrático. Não capisquei niente, coisa que me acontece seguido, por sinal. Mas fiquei matutando: se vivêssemos num mundo paradisíaco, não haveria necessidade de defender a livre expressão nem um salário razoável ou a temperatura certa da cerveja no bar da esquina. Precisamos defender a livre expressão justamente porque ela é cerceada com os argumentos mais escalafobéticos, como esperar viver numa democracia pra exigir democracia.
Bobo radical
É bem provável que eu seja ingênuo, afinal não acredito na santidade nem dos santos, imagina na de governantes (não importa a tendência), embora tenha me esforçado por anos afora, e por isso mesmo não acredito que a omertà seja coisa louvável. Calar o bico sobre os erros ou crimes de qualquer governo ou grupo ou pessoa, mesmo em nome das melhores causas, me parece um modo excelente de apodrecer essas causas e de apodrecer junto com elas.
Inimigo meu
Sabe-se, se eu tenho de me tornar igual ao meu inimigo pra combatê-lo, eu já perdi a batalha. Ou pelo menos o arzinho satisfeito que não me deixa baixar a crista.
Ou meios e fins
Segundo o teólogo jesuíta Hermann Busenbaum, “quando o fim é bom, também os meios o são”. Pra alcançar o céu, membros da Igreja mentiram, torturaram, mataram, roubaram e se aliaram com os piores bandidos. Como a Igreja tem um objetivo louvável — fazer o meio de campo entre Deus e os fiéis —, prefere calar as estripulias de padres pedófilos: em termos publicitários, melhor uma imagem falsa que a justiça. Membros da máfia agem do mesmo modo pra enriquecer e se proteger da polícia — quem pode dizer que, do ponto de vista deles, o fim não era bom? Se um governante, tenha sido eleito ou não por mim, garante que está defendendo meus interesses — um ótimo fim —, mas entre os meios que usa está querer se manter no cargo pra sempre, agir em segredo, me mandar calar a boca e me ameaçar com cana se eu insistir em fiscalizar ou dar algum palpite, sei não, eu diria, como um dos três porquinhos, que é aí que a porca torce o rabo. Me desculpem o didatismo e buenas salenas cronópio cronópio.

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