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A pátria, a blogueira e o bobo

Sou meio bobo, sabe-se. Deve ser por isso que até agora não entendi esse bafafá em torno da blogueira cubana, Yoani Sánchez. Daí que …

Sou meio bobo, sabe-se. Deve ser por isso que até agora não entendi esse bafafá em torno da blogueira cubana, Yoani Sánchez. Daí que ela fala mal de Cuba? Todo cubano tem o direito de falar mal de Cuba. Vou mais longe: tem o dever de falar mal. Acho que é isso que a gente tem de fazer com nossa pátria. A pátria está aí pra isso e nós também, não há escapatória, os muito satisfeitos com ela que me desculpem. Eu falo mal do Brasil todo santo dia. Quando não falo, penso. Mas Yoani ganha por falar mal. Sortuda. Outros ganham pra falar bem. Sortudos. Eu é que sou azarado, não ganho nem olhares tortos, fale mal ou bem. Mas não chorem por mim.

Paraísos

Se nem Adão e Eva acreditavam no Paraíso, por que eu tenho de acreditar? Se eles acreditassem, não teriam pedido mais, confere? Acho que temos, de novo, o direito e o dever de pedir mais de nossa pátria, seja ela Cuba ou Capivari de Baixo. Paraíso? Só fiscal, meu nego.

Quanto pior, melhor?

Há quem comemore as misérias cubanas como se se tratassem de uma vitória. Me pergunto: vitória de quem? Dos americanos, do livre mercado, da vó do Badanha? As misérias de Cuba não são vitória de ninguém, como as misérias de qualquer outro lugar. São só mais um fracasso. São só mais uma aposta das pessoas que deu errada. Todos nós perdemos.

Perigos

Cuba só foi perigosa como ideia. Claro, foi e é perigosa pra muitos cubanos, como o Brasil é perigoso pra muitos brasileiros ou a Argentina é perigosa pra muitos argentinos ou como Trombudo do Norte é perigoso pros seus moradores. Agora, os Estados Unidos são um perigo pra eles e pra nós, um perigo como ideia e, pra completar, um perigo militar e econômico. Como eles precisam justificar os investimentos, têm de arrumar pretextos pra usar suas armas. E como o famoso modo de vida americano nada mais é que correr atrás da bufunfa, custe o que custar, os gringos mantêm o planeta no patíbulo. Ou você já esqueceu o imbróglio causado pelas maracutaias dos bancos deles?

Já dizia o Henry Miller: segurem os americanos, que eles vão foder o mundo. Você viu alguém segurando? Mas acho uma tristeza imensa que a democracia americana seja uma coisa que só funciona cem por cento nos filmes americanos. Todos nós perdemos com isso.

Texano de ponta

Lamar Smith, deputado texano, é presidente da Comissão de Ciência, Espaço e Tecnologia na Câmara. Ele convocou uma audiência pra decidir se os meteoros existem. Um repórter lembrou o meteoro gigante que teria acabado com os dinossauros. Lamar Smith reagiu na bucha: “Agora vamos acreditar que os dinossauros existiram?”. Pode ser pitoresco, sim, mas não tem graça nenhuma. Basta lembrar que grande parte dos governantes americanos é do mesmo naipe de Lamar Smith.

Na cama com Lolita

Levei Lolita pra cama muitas vezes. Ou pra rede, onde é mais gostoso. Na verdade, perdi a conta. Mas uma coisa é certa: sempre foi um prazer, uma labareda em minha carne.

Entenda-se, tenho o mau hábito de ler deitado e o bom hábito de reler Nabokov. Gosto de escritores astutos. Se há um lugar onde a ingenuidade me parece deslocada é na literatura.

Dias desses, no blog Caminhando por fora, li um belo texto da Caminhante sobre sua difícil relação com Humbert Humbert, o personagem e narrador de Lolita. Uma ou duas semanas depois, li no El País que na Rússia tinham pichado, numa exposição sobre Nabokov ou coisa parecida, que ele era pedófilo. Isso me lembrou um papo, num bar, nos anos 70: um cara me explicava que um rapaz conhecido dele tinha achado uma perda de tempo ler Crime e castigo, do Dostoiévski, porque no final o Raskolnikov se arrepende. Achava ofensivo alguém se arrepender por ter matado uma velha inútil, capitalista ainda por cima. No embalo, lembrei de um crítico que disse que O chefão, do Mario Puzo, era um romance imoral, e de um jornalista da Gazeta Mercantil que detonou Anne Tyler como autora de auto-ajuda pra senhoras na menopausa.

O que segue chega à mesma conclusão da Caminhante, infelizmente sem a mesma clareza. Mas faço questão de insistir. Um pouco porque, se a Caminhante pega o bicho pelas orelhas, eu tento pegar pelo rabo. Outro tanto porque o bicho é perigoso e me parece que não devemos nos meter sozinhos com ele. Pra completar, porque passei a adolescência no tempo da ditadura e — vamos falar francamente? — me enchi das aulas de moral e cívica.

A função da ficção

Alberto Moravia disse, numa entrevista, que a função da ficção não é criticar a burguesia ou coisa parecida, mas criar personagens vivos. Como se vê, a moral e os bons costumes não entram na jogada. Você pode se identificar ou não com um personagem, mas é na ficção, apenas na ficção, que você pode conhecer íntima e profundamente todo tipo de gente, do mais imbecil ao mais inteligente, do mais generoso ao assassino mais frio. É na ficção que você pode matar ou morrer, ou, digamos de modo menos melodramático, saber em detalhes como se mata e se morre sem precisar matar ou morrer e ir em cana ou dar despesa pros entes queridos. É na ficção que você tem a realidade, seja ela que bicho for, num modelo mais funcional. Você pode concordar com as ideias de um personagem, mas ele não existe pra isso, existe pra te fazer viver a experiência dele. Todo o resto são ganhos secundários.

As confissões do viúvo de cor branca

Com Humbert Humbert, Nabokov criou um personagem de enorme complexidade, em que se misturam loucura e inteligência, sinceridade e falácia, humor e tragédia, charme e desejos que papai & mamãe não gostam nem de saber que existem. Pra mim, um dos melhores exemplos da complexidade de Humbert Humbert é sua paixão desvairada por uma menina absolutamente comum, sem graça, de uma beleza feita em série. Humbert Humbert não sai de dentro da própria cabeça. Caça sua anima, como diria Jung. Pra completar, Nabokov brinca o tempo todo com o leitor, suas expectativas, sua candura ou matreirice. Há armadilhas em tudo quanto é parágrafo. Não se pode então aceitar a palavra de Humbert Humbert assim no mole. Ele não está ali pra te contar a verdade. Ele está ali exibindo sua dissolução mental, como tantos outros personagens de tantos outros livros do Nabokov. Se você engole tudo sem mastigar, azar o teu. Melhor tomar um sal de frutas e ir assistir às novelas da Globo.

Montanha-russa, sem trocadilho

Imagino um resumo de Crime e castigo como desses de filmes que vemos nos jornais: rapaz mata velha usurária e depois se arrepende. Impossível imaginar, por essa linha, o tumulto monstruoso que é o romance do Dostoiévski, o embate entre razão e emoção, o que Raskolnikov pensa que é a realidade e a dita cuja. Deixar de curtir a experiência dos tormentos de Raskolnikov por não concordar ideologicamente com o final é de uma tacanhice inominável, um verdadeiro atentado à literatura, à inteligência.

Dostoiévski até podia estar fazendo uma propagandazinha, mas e daí? Esse final é verossímil. A vida está cheia deles. Nem todo mundo pode ser um psicopata de filme americano.

Pra reduzir Crime e castigo à “mensagem” da cena final é preciso ignorar o que são as pessoas, todas as suas incertezas, delírios, contradições, desejos, esperanças. Por favor, estamos falando de um romance, não de um manual de como montar uma escrivaninha, em que a indicação da tábua certa na posição certa e do parafuso certo no buraco certo são essenciais pra não se causar um desastre. Navegar é preciso, não no sentido de necessário, como pensam os ouvintes do Caetano, mas de exato. Etc e tal.

O crime por dentro

Onde está a imoralidade d’O chefão? Puzo não faz apologia do crime organizado, só nos mostra como ele funciona. Só? Puzo foi mais longe e foi mais feliz: conseguiu criar um bom personagem. O incômodo é que há momentos em que nos identificamos com esse monstro. O incômodo é ver que, se estivéssemos nas situações em que Corleone está, talvez reagíssemos do mesmo modo ou de modo pior. É por essas e outras que a literatura existe, pra que você veja aquilo que os espelhos não refletem e o bom sujeito que você é reluta em ver. Se a literatura se limitasse a retratar o homem como, por exemplo, os católicos sonham que ele deveria ser, os leitores todos seriam avestruzes com a cabeça enterrada na areia, com o bumbum na pose que o diabo gosta.

A menopausa ao alcance de todos

Fiquei muito surpreso quando li que Anne Tyler é uma escritora pra senhoras na menopausa. Não lembro que livro o jornalista comentava. Sei que tinha uma mulher que se separa do marido, vive uma série de decepções e acaba voltando pra ele. Claro, o jornalista achava que a mulher essa não devia se conformar, que ela é um mau exemplo. Coitado, no seu romantismo recolhido, não entendeu patavina.

Basta ler outros livros da Tyler pra se notar que tratam da luta das pessoas com seus impulsos irracionais, idiotas e destrutivos, mas quase sempre cômicos. Lutas devastadoras às vezes. Lutas quase sempre perdidas, exatamente como a gente vê na própria família se tiver peito pra isso. Tyler nos conhece a fundo e fala de nossas fraquezas e ridículos sem dar colher de chá, mas de um modo divertido, cheio de charme e de compaixão. Escritora imensamente superior aos Jonathan Franzen e aos Paul Auster da vida, mas, como escreve de modo simples e tradicional, está reduzida a senhoras na menopausa como eu.

PS: Recomendo O turista acidental, A passagem de Morgan e Lições de vida (este faturou o Pulitzer de ficção de 1989). Há muitos outros romances, mas esses são os melhores, se é que sei do que estou falando. São de uma tristeza e hilaridade mortais.

Ecoando a Caminhante

Se você vai ler livros só com ideias com que concorda e com cenas que afagam tuas boas intenções, você vai viver num coma intelectual e emocional. Não, na verdade não. Porque você não vai achar esses livros nem que você mesmo os escreva. Acontece que a gente não concorda cem por cento nem com a gente mesmo e preto e branco é coisa de zebras e dos primórdios do cinema. As boas intenções são temperadas pelas emoções mais violentas e obscuras, e as ideias variam com o tempo, o vento, o lugar, a quantidade de vinho tomada e o fato de a vizinha ser boazuda ou não.

Paciência, ainda o Quixote

Entre as perguntas que me fizeram sobre a tradução do Quixote, gostei muito de uma do Carlos André Moreira, da Zero Hora. Acho que eu a esperava, acho que ela estava na cabeça de todo mundo, mas foi ele que teve a coragem de fazê-la e com um tato admirável.

A pergunta: É mais tranquilizador ou intimidador trabalhar com um texto sobre o qual tanto já se escreveu?

A resposta: Acho que a resposta certa é intimidador. Mas a verdade é que não me senti intimidado em momento algum. Me senti desafiado, isso sim. Traduzir, como escrever, é um jogo, um grande jogo, um jogo muito divertido. Quanto mais complicado, mais divertido, me entende? Outra coisa é que Cervantes não é nada solene. Na verdade é um tremendo gozador. Daí que me senti muito à vontade. Sabe como é, eu poderia ter tomado uns tragos com ele numa taberna e falado mal do Lope de Vega.

Quando terminei, estava um bagaço. Pensei que se tivesse de começar tudo de novo, não teria coragem. Mas duas semanas depois me sentia prontinho pra outra.

Autor

Ernani Ssó

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