Musicar todas as horas do dia. Como se, ao invés de horas na agenda de compromissos, tivéssemos trilhas musicais. Reunião com amigos? Encontro com o amor? Clave de sol. As notas flutuariam dentro do ambiente, rearranjando-se de quando em quando, dando origem às músicas.
As músicas variariam de acordo com o nosso estado interno, com a companhia e com a própria natureza do compromisso. Mas haveria espaço para o silêncio, também. Há momentos de reflexão e contemplação em que o que mais necessitamos é uma música. Um som calmo ou não, mas alinhado aos pensamentos, que podem estar em ebulição ou se organizando, lentamente.
Mas há momentos em que necessitamos do silêncio. Para que tenhamos o vazio para sentir a falta, para que se oxigene o cérebro, para que abramos os olhos e pisquemos lentamente, quando um único segundo seja o mesmo que uma existência, para que se condensem todos os sentimentos efervescentes. O vazio, a ausência de som, virando o tudo. O nada virando tudo, a tranquilidade dando origem à centelha da criação, que vem em jorros de ideias, visões e sentimentos.
Há momentos da vida em que um solo de clarineta, como diria o Érico Veríssimo, é a trilha exata. Lento, agudo, profundo. Musicando os pensamentos, direcionando as sensações, dando rumo aos sentimentos e abrindo novos horizontes.
Nos momentos de explosão, de o mundo por vir, de alegrias e conquistas, a trilha pode ser Adiós Nonino, do Astor Piazzolla. Vai num crescendo, em que vem da quietude e serenidade rumo à grandeza. À explosiva grandeza, às fantásticas realizações. Mas este andamento, este rumo que a música vai tomando, é tecido com maestria pelo Astor Piazzolla. As notas estão no momento e no lugar certo. Com o instrumento certo. Os conflitos, que tanto aparecem em nossas vidas, estão mostrados nas notas de piano, violino e bandoneon, que parecem brigar entre si, cada qual gritando sua razão. Até que resolvem fazer as pazes, através do bandoneon do Piazzolla. Todos concordam. Não há como não sentir-se muito, muito grande, potente e capaz ao ouvir esta música.
Para preencher tardes chuvosas, Miles Davis. Chopin. Piano. São tardes de leitura, em que um café ou um chocolate quente deveriam poder ser bebidos pelos ouvidos. Musicados. Um chocolate quente, aliás, seria para mim o som do violoncelo. Um solo de violoncelo. Já o café, o café, o café… Um expresso tem conteúdo, notas, personalidade. Etta James.
O sol aparecer depois da chuva, em um dia de primavera. Trenzinho Caipira, de Heitor Villa Lobos. Quando esta música é executada, as nuvens já estão a se abrir, mostrando o vigor do sol. A vida está em curso, o sol é seu astro mágico. As coisas vão ficar bem. Muito bem.
E a paz do amor, a paz de estar com a pessoa amada numa tarde de inverno é Edu Lobo e sua voz de travesseiro. É Geraldo Azevedo. É Chico Buarque. Elba Ramalho, Etta James em versão romântica.
Quando abríssemos a gaveta da mesa de cabeceira, deveria sair de lá a trilha das coisas que estão dentro: se fotos, músicas antigas que marcaram aqueles momentos. Se remédios, sonso de Vivaldi para chamar a saúde de volta. Se bugigangas, bugimúsicas. Músicas não de qualidade ruim, mas versáteis, para qualquer momento. Adriana Calcanhotto. Zeca Baleiro. Frank Sinatra. Maria Bethânia.
Em frente ao espelho, escovando os dentes pela manhã: James Brown. Em frente ao espelho, escovando os dentes, à noite: piano, muito piano. Diana Krall. Norah Jones.
Enfim, cada momento e ato de nossas vidas acompanhado de música. Uma espécie de pensamento mp3 musical, quando é possível usarmos a música a nosso favor. A favor da vida, do amor e também a favor da piração, da criativade, do tirar tudo fora do lugar. Para depois, ao som de outras músicas, recolocar as coisas cuidadosamente nos seus novos lugares desarrumados. Música, Maestro!

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