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Sherlock Holmes, cocaína e censura

Conheci Júlio Mariani como jornalista, um jornalista da velha guarda — foi repórter, fotógrafo, diagramador, editor. Passou por jornais, rádio, tevê. Levei anos pra …

Conheci Júlio Mariani como jornalista, um jornalista da velha guarda — foi repórter, fotógrafo, diagramador, editor. Passou por jornais, rádio, tevê. Levei anos pra descobrir a identidade secreta dele: o artista plástico. Não é pouco, mas o homem ainda manja de cinema e é um grande leitor. Transcrevo abaixo um trecho de um bilhete que ele me escreveu.

A propósito, vou te contar uma historinha envolvendo traduções, edições, etc. Minhas primeiras leituras de Sherlock Holmes foram feitas em cima de uma série da Melhoramentos, acho que lá dos anos 50. Li toda a série, eram nove ou dez volumes, e depois disso, cada vez que eu lia ou ouvia alguma referência ao fato de o superdetetive ser chegado em morfina e cocaína, ficava impressionado porque nunca encontrara nada a propósito nos meus livros.

Há pouco tempo, fui reler O Signo dos quatro na edição nova da L&PM Pocket e o livro abre assim: “Sherlock Holmes tomou o frasco que estava sobre a borda da lareira e, abrindo um elegante estojo de marroquim, tirou sua seringa hipodérmica. Com os dedos longos, brancos e nervosos, ajustou a agulha delgada e arregaçou o punho esquerdo da camisa. Durante um momento pousou o olhar no pulso e no antebraço vigoroso, pontilhado de inúmeras picadas”.

A edição Melhoramentos do mesmo livro começa assim: “— Meu cérebro, disse Sherlock Holmes, rebela-se contra a estagnação”. E por aí vai, num parágrafo que na verdade entra, na edição L&PM, duas páginas depois do início verdadeiro. E depois disso, cada vez que a droga é citada, foram feitos retoques na edição Melhoramentos, inclusive no parágrafo final: “— Para mim, disse Sherlock Holmes, sempre resta a expectativa de recomeçar, a cada momento um novo caso…”. Na edição L&PM: “— Para mim — disse Sherlock Holmes —, sempre me resta o vidro de cocaína. E, assim dizendo, estendeu para ele a mão comprida e branca”.

O engraçado, Ernani, é que o livro da L&PM cita como origem do copyright o ano de 1954 e a Cia. Melhoramentos, inclusive sobre a tradução, atribuída a Hamilcar de Garcia, realmente o mesmo nome que aparece na edição Melhoramentos.

Cara, bota censura à vontade nisso aí! E olha que em 1954 o Brasil vivia um breve interregno democrático!

Discussões

Como todo mundo, eu gosto de ter razão. Também gosto de argumentar com ironia, quase sempre o último recurso pra enfrentar a impermeabilidade da fé. Mas isso é perigoso, pode parecer que se esfrega a verdade no nariz dos outros como se esfrega o nariz do gato no cocô. Agora, cá pra nós, sinto um prazer especial quando, numa discussão, sou convencido de que estava errado. Ao reconhecer meu erro há uma espécie de alívio, seguido de uma agitação da mente, que se lança por trilhas insuspeitadas até aquele momento.

Sempre que penso nisso, me lembro dos quebra-paus que tive com o Paulo Hecker Filho, um crítico com quem eu quase sempre concordava com a teoria e brigava sobre os exemplos que a ilustravam. O que dizíamos, ou melhor, a forma como dizíamos teria levado muitas pessoas a narizes quebrados ou olhos roxos. Mas pra nós era só esgrima, achar o melhor jeito de sacanear o outro, de poder dizer rindo: agora te peguei. Tanto foi assim que nossa simpatia e respeito mútuos cresceram com o tempo.

Pena que depois disso tenho encontrado muita gente ofendida porque não pensamos do mesmo modo.

Deu no UOL

“Urubu doméstico come salsicha em vez de carniça.” Coitado.

Fatos & versões

Não há fatos, apenas versões, disse o bigodudo aquele. Eu tenho um verdadeiro fascínio pelas versões, pela criatividade ou descaramento delas, pelo rumo sempre imprevisto que tomam. Gostaria de ter talento pra me aproveitar direito disso como escritor. Meu ideal é O castelo, do Kafka. Cada acontecimento se desmancha em tantas explicações — note-se, sempre muito verossímeis, dentro do quadro de humor e absurdo que ele apresenta — que no fim parece que tentamos agarrar as águas de um rio.

Por falar em versões

Mais que a surra vergonhosa que Chael Sonnen levou do Anderson Silva, ano passado, adorei as entrevistas do Sonnen e de seu treinador. Sonnen disse que não sabia se tinha realmente levado uma joelhada no plexo. Talvez fosse no queixo, golpe proibido na posição em que estava. Não, não tinha visto o tape da luta. Nem ia ver. O entrevistador também não mostrou a cena pra esclarecer o distinto público.

O treinador foi maravilhoso: disse que Anderson foi mal intencionado. Sim, você entra no octógono pra vencer teu oponente se possível por nocaute, mas, se teu oponente for Chael Sonnen, você tem que oferecer um buquê de rosas pra ele.

Eu vejo essas coisas e penso em literatura, em cinema, em artes plásticas. Pobres autores, pobre público, pobres críticos. Jamais terão um tape pra confirmar onde pegou a joelhada. Pra piorar, nessas modalidades, joelhada no saco não é golpe baixo.

Autor

Ernani Ssó

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