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O escurinho do cinema?

Como sou cinéfilo, tenho a oportunidade de observar o comportamento das pessoas no cinema. Uma das coisas que praticamente terminou foi o escurinho do …

Como sou cinéfilo, tenho a oportunidade de observar o comportamento das pessoas no cinema. Uma das coisas que praticamente terminou foi o escurinho do cinema, com o advento dos celulares e suas grandes telas(as dos celulares, não me refiro à tela do cinema). Muita luz e muitas vezes, quando o filme já está em curso.

Ontem, fui assistir ao filme Django, o novo do Quentin Tarantino(recomendo). Pois antigamente, quando se ia a uma sala de cinema, aqueles segundos que precedem o filme eram momentos de uma gostosa ansiedade e cochichos. Ontem, me senti em um zoológico. O ruído gerado por pessoas comendo teve um que de animalesco. Porque não sou contra que se leve uma balinha para o cinema, mas está claro que aquela comilança(o barulho das pessoas mexendo em pipocas e balas, o ruído da mastigação e ainda das conversas em alto volume) é uma descarga de ansiedade. As pessoas TÊM que comer quando vão ao cinema. Para elas, não é mais uma escolha, mas uma obrigação.

Não acho que não se possa eventualmente conversar(desde que bem baixo, para não atrapalhar aos demais espectadores), para fazer um comentário durante o filme. Tampouco acho que não se pode levar alguma bala. Mas fica escancarado que há uma motivação para estas pessoas irem ao cinema: comer, conversar e mostrarem a sua total falta de educação.

O comportamento das pessoas dentro das salas de cinema somente reflete um fenômeno em curso na nossa sociedade. As pessoas estão tendo uma crescente necessidade de extravasarem seus sentimentos. Seja em um cinema, seja através de carros com som em altíssimo volume, seja na bebida alcoólica nas noites, seja no Carnaval, seja no futebol.  A educação foi praticamente abolida como prática civilizada. O centro está em cada uma destas pessoas, que se colocam em primeiro plano e extravasam seu sentimento, seja ele qual for.

E se há esta necessidade crescente de extravasarem, fica claro também que são pessoas claramente frustradas. Somente frustrados e reprimidos têm esta necessidade incontrolável. Suas vidas devem ser medíocres, devem fazer o que não gostam profissionalmente, devem se relacionar com quem não gostariam(seja estando casadas ou não), ou seja – e como diz a piada – foi criada a sua placenta existencial, não o bebê. Suas existências são placentárias.

Meu finado pai dizia (ele adorava música) que “quando alguém fala quando alguém toca ou canta coloca na vitrine a sua ignorância”. Naturalmente, um exagero. Porém, não desprovido de razão. De forma análoga, quem se comporta como rascunho de ser humano em uma sala de cinema, está me comunicando com luzes piscantes a vida lamentável que leva.

Há uma marcha da regressão em curso: as músicas são ai se eu te pego, vou te pegar, vais ver, a educação está acabando, o desrespeito cresce e as preocupações cotidianas são de um nível lamentável. Há uma sexualização das crianças, forçada pelos pais, combinada com uma infantilização dos adultos. Em breve, teremos de volta os tacapes, os grunhidos e a baba poderá escorrer tranquila pelo canto da boca.  

Autor

Flavio Paiva

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