Le Guin é autora de alguns dos melhores livros de ficção científica que já li. Um repórter pergunta pra ela se o sexo merece todo o barulho que se faz. Ela: “Estamos um tanto obcecados, europeus e americanos; não sei se isso é muito inteligente. Às vezes há sexo demais em nossos autores. Há realmente tanto sexo em nossa vida? Falamos mais de trabalho, de relações. A escrita sobre sexo não é muito boa. Isso quando não é pura pornografia. Descrever o sexo em geral é mais chato que o beisebol”.
Estupro em hotel
Foi no Rio, deu no UOL. No final da matéria, se lê: “Até a noite desta sexta-feira, o hotel não havia se manifestado”. Eu sei que a tecnologia anda muito avançada, mas me parece que estão longe os dias em que teremos hotéis-robôs com consciência. A rapidez e a facilidade que a internet instaurou, aliadas aos corretores ortográficos e gramaticais dos processadores de texto, trouxeram junto a dispensa de uma velha figura das redações: o revisor. De modo que todo santo dia a gente tropeça nos erros mais estúpidos — erros, é bom lembrar, cometidos por pessoas com um diploma de curso superior. Claro que um erro como esse do hotel é pinto perto da confusão mental que passa por escrita online.
Barbara Cartland
Ela é autora de mais de setecentos livros tolos, mas não era uma tola. Não digo isso porque enriqueceu explorando cabeças ocas e carentes. Veja uma declaração dela: “Os dois melhores exercícios são fazer amor e dançar. Mas só em um deles é preciso ficar na ponta dos pés”. Outra: “Você pode manter seu rosto ou seu valor. Aconselho manter o rosto, para o qual as pessoas olham primeiro”.
Vanguarda
Penso num romance não pra ser lido, mas pra ser elogiado nos segundos cadernos, causar uma enxurrada de ensaios em linguagem acadêmica perfeitamente impenetrável e ter defensores nas caixas de comentários da globosfera, sempre mais ardorosos quanto menos sabem do que estão falando. Ei-lo: o guia telefônico de Hiroxima dos dias anteriores à bomba. Note-se minha astúcia: sem esforço nenhum, deixo tudo por conta de fatores externos ao texto — a História e a imaginação vaidosa dos críticos. Como diria Borges, será um livro como a palavra do profeta, que diz a cada um o que ele quer ouvir.
Pulando amarelinha
Sérgio Karan disse que, depois de eu traduzir o Quixote, encarar Rayuela, do Julio Cortázar, vai ser barbada. Nem tanto. As dificuldades de Rayuela são diferentes, mas, é certo, são mais dribláveis que as do Quixote. Outra coisa, implícita na observação do Karan, é que a tradução brasileira de Rayuela, O jogo da amarelinha, feita por um tal Castro Ferro, beira o crime. Um dos poucos acertos é o título. Até nem sei como ele não se saiu com A sapata maldita. Mas Cortázar não teve problemas só com Castro Ferro no Brasil. Em geral foi traduzido com desleixo, como quase todos, sem falarmos que traduzir escritores muito fluentes é o diabo, meus amigos, o diabo.
A volta de Le Guin
O repórter fala de nossa necessidade de fantasia. Ela: “Acho que a imaginação é a principal faculdade da mente humana. A fantasia, a habilidade, a arte de usar e controlar a imaginação numa narrativa é o melhor e o mais feliz exercício no uso dessa faculdade, junto com a ciência, que a usa para ligar fatos que não parecem relacionados”.

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