Saudoso tempo em que havia oposição nesta vida. Mas oposição mesmo. Genuína e intestina. Porque peguemos o caso da política: a oposição praticamente inexiste. Mas, quando existe, termina a partir de acordos que distribuam cargos e benesses. Desta forma, temos a preponderância do pensamento único.
Mas se pegarmos outras áreas da vida, encontraremos problema semelhante: com o patrulhamento do politicamente correto, também é exigido de nós, cidadãos, que nos portemos de forma “correta”. A vida está enfadonha, tudo está muito “certinho” e previsível. Contestações genuínas são malvistas, há uma batida muito forte de adequação ao status quo, seja ele qual for.
Desde quando eu era um guri – e é assim no passar dos tempos, acontece há séculos na história da humanidade – havia a pressão social para que as pessoas fossem ajustadas ao pensamento dominante. É inerente ao ser humano pressionar para que seus pares se ajustem. Só que agora está em uma dose muito mais do que exagerada.
Uma das razões é sem dúvida o medo do desconhecido. Conforme a psicanálise, este medo é um dos maiores do ser humano, perdendo claro para o medo ou o sentimento do abandono, o grande campeão. Por temerem quem pensa ou age de forma diferente (pois estas pessoas orbitam em um universo particular) os cidadãos “de bem” os rejeitam. Em especial em nosso estado, aceitar o diferente se mostra como algo intolerável.
Obviamente que para a vida em sociedade acontecer de forma razoável, é preciso que algumas convenções sejam respeitadas, atitudes adequadas ao convívio social. Não é possível andarmos nus pelas ruas, tampouco brigarmos a socos com alguém por coisas banais. Caso isto aconteça, se instalará um caos ainda pior do que o que vivemos. Mas conviver com o diferente nos coloca em xeque: até que ponto não nos contaminaremos por aquela forma de pensar e agir e sairemos de nossa zona de conforto? Até que ponto nos questionaremos porque agimos, pensamos ou vivemos de determinada forma? A evolução é sempre dolorosa, e o questionamento é o combustível da evolução.
Com o questionamento, vem a dúvida. Com a dúvida, o desconforto e a insegurança iniciais, mesmo que logo suplantadas por uma decisão, seja de manter a mesma atitude e postura, seja de mudar para uma nova forma de viver, pensar, agir.
Oposição se dá de diferentes formas. Pode ser a oposição política, quase inexistente no Brasil. Pode ser oposição de pensamento, manifestada por uma visão diferente do mundo, não necessariamente antagônica, mas diferente. Pode ser oposição a velhos hábitos. Como pensarmos mais no meio ambiente. De forma urgente. Mas também e principalmente em uma forma de pensar que rompa com a bolha criada por redes sociais (nada contra, o problema é a vida ser transferida para as redes sociais), aparência (emagrecimento, rejuvenescimento, preenchimento), felicidade (o sucesso nem sempre é ser feliz, que me perdoe o autor daquele livro. Às vezes, é preciso ensimesmar-se, entristecer, restar em melancolia para crescer). Nunca me senti tão pressionado a ser feliz, rico, magro e uhuuu!! (vou definir este como um novo estado, superior à felicidade) como nos dias de hoje. Mas, ao olhar em volta, não consigo. Vejo tanta gente infeliz se esforçando para parecer feliz, vejo as pessoas reféns da ditadura da moda-magreza-juventude, angustiadas se lhes surge um cabelo branco ou ruga e quase nada preocupadas com o que realmente importa. O pensamento, a troca genuína entre os seres humanos. Que eu saiba, estamos neste mundo de meu Deus para isto, para trocarmos e evoluirmos. Ou não é mais assim? Se alguém souber algo em contrário, me avise.

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