Ontem, minha mulher sofreu um acidente de trânsito. Um caminhão frigorífico(frigorífico Faro) deixou a porta destravada e, com o vento, esta se abriu e acertou em cheio a porta e o vidro do carona. Um susto enorme e igualmente um risco enorme, pois se alguém estivesse no banco do carona, provavelmente teria morrido.
Passado o susto, os prejuízos: o frigorífico Faro tem seguro, mas não fornecem carro reserva. Tentei negociar com o supervisor da empresa, alegando que era um prejuízo que eles haviam causado, por não terem trancado a porta do caminhão frigorífico. A resposta foi a clássica no Brasil: “vai procurar teus direitos”. Me sugeriu que eu locasse um carro e entrasse na Justiça, que a seguradora pagaria. Aleguei que seria mais justo, sensato e barato acertarmos que a empresa dele fizesse uma locação do carro pelo tempo do conserto(aproximadamente 15 dias). Mas o que ouvi foi um – como eu chamo – “Te vira, magrão!”
Este caso é emblemático e representa o que temos na sociedade brasileira: uma abundância de deveres e direitos parcos. O raciocínio é lógico: houve um prejuízo não causado por nós, além do transtorno e do risco à segurança. Mas aí todos somos reféns. Não há o que fazer, a não ser absorver o prejuízo e mascar este fumo. Não acho de forma alguma correto que esta empresa não se responsabilize pelo prejuízo. Eles pagarão a troca da porta e do vidro, mas como fica a vida? Além disto, trocarão a porta mas não pagarão a pintura da lateral do carro. Ou seja, mais prejuízo.
Temos infindáveis deveres, de preservar o meio ambiente, de respeitar as leis, de pagar os tributos, mas os direitos não estão nunca ao alcance das nossas mãos. Para fazer valer os direitos no Brasil, ou se é poderoso ou se entra nas brechas do sistema. Infelizmente. Ensinamos nossos filhos a respeitarem, mas é preciso que a sociedade e os governos os respeitem. Não é possível um país como o nosso, onde exacerbam-se os deveres e minguam os direitos. Falam incansavelmente nos veículos de comunicação que temos muitos direitos, que o consumidor tem poder. Mas na prática e lá na hora, como dizia o professor Régis Gonzaga nas aulas do Unificado, “não é bem assim”.
Cansativo, frustrante e revoltante. São adjetivos mínimos quando se é brasileiro. Gostaria de justiça. Não da Justiça, o poder instituído. Mas de justiça. Sei que a vida não é justa, mas ela poderia não ser tão injusta assim.

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