Quem levou o tutu, este ano, foi o chinês Mo Yan. Como sempre, a política pesou mais que a literatura. A gente já se acostumou, claro, mas se chateia cada vez que nota. Ou não? Acho que a chateação é só uma lembrança das primeiras chateações, essas sim de verdade.
Mo Yan é careca. Claro, não é o primeiro Nobel careca. Não investiguei, mas é bem provável que a maioria dos nobelizados seja careca. Em todas as áreas, não só na literatura. Mas Mo Yan não é um careca qualquer e sim daqueles que deixam crescer uma vasta cabeleira de um lado e depois a penteiam laboriosamente sobre a parte pelada. Ficam muito engraçados quando vão à praia e dão um mergulho: a orelha direita fica se refrescando, exposta às brisas marinhas, e a esquerda coberta por uma cortina cabeluda que vai até o ombro.
De qualquer forma, parabéns pelo prêmio, Mo Yan. Invista direitinho a grana e vê se compra uma peruca.
Nobel recusado
Que eu saiba, apenas dois escritores recusaram o Nobel. Boris Pasternak, em 1958, e Jean-Paul Sartre, em 1964. Pasternak não vale, foi pressionado pelo governo soviético. Nem merecia o prêmio, era um escritorzinho de meia tigela. Sobra o Sartre. Não tenho nenhuma simpatia por ele, porque sempre me pareceu um boçal, mas reconheço que antes já havia recusado outras premiações, como a Legião de Honra. Estava certo ele. Alguns prêmios são como a marca na picanha do boi.
Gosto de dois romances dele, A náusea e A idade da razão, mais algumas peças. Quase toda sua obra envelheceu — envelheceu rápido e mal. Como filósofo me parece insuportável, com um texto obscuro, não sei se intencionalmente ou por efeito das drogas que tomava pra escrever. Como propagandista político disse um monte de asneiras das mais grossas, mas quem não disse? Agora, o polemista era perigoso, muito perigoso: além de inteligente, era trapaceiro e incansável.
Luvas Negras
Sartre era uma figura: feio pra cachorro, zarolho, baixinho, gordo e nada chegado a um banho. Segundo Simone de Beauvoir, o quarto dele era pestilento. Teve uma época que seu apelido era Luvas Negras, devido à sujeira das mãos.
O filósofo Michel Onfray cita, num ensaio, o balanço de um dia de Sartre feito por Cohen-Solal: “Dois maços de cigarros — Boyard papier maïs — e muitos cachimbos cheios de tabaco negro; mais de um litro de álcool — vinho, cerveja, água-ardente, uísque, etc.; duzentos miligramas de anfetaminas; quinze gramas de aspirina; vários gramas de barbitúricos, sem contar os cafés, chás e a gordura de sua alimentação diária”. Segundo Onfray, escreveu Crítica da razão dialética e O ser e o nada a esse preço. Às vezes consumia mais de um tubo de Corydrane por dia. Chupava as pílulas como se fossem pastilhas Valda. (Corydrane era um estimulante feito com aspirina e anfetamina. Foi retirado do mercado francês em 1971.)
Sartre não gostava de comida nem de sexo. Andou com uma mulher que o reverenciou a vida toda e que, depois que ele entregou a rapadura, descreveu em detalhes todas as suas humilhações. Perdão, quase pensei: bem feito.
García e Greene
Gabriel García Márquez foi companheiro de voo de Graham Greene uma vez. Disse que Greene falava pouco, mas que depois, lembrando, parecia muito, porque nunca era papo furado. Enfim, García perguntou a Greene por que não davam o Nobel pra ele. Greene respondeu que não o levavam a sério.
Adoro essa resposta. Nem sei se é verdadeira. Mas, considerando todo o lixo que a Academia Sueca leva a sério, fica bem na foto, não?

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