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Pau no Paul Auster

Houve um tempo em que era moda ou mais que moda: o cara se sentia especial por ler Paul Auster. Especial? Desconfio que o …

Houve um tempo em que era moda ou mais que moda: o cara se sentia especial por ler Paul Auster. Especial? Desconfio que o leitor do Paul Auster se achava um pouco Paul Auster, morando em Nova Iorque, bonito, casado com uma loira linda e sofisticada. Como me recomendaram muito, fui ler. Achei Música do acaso legalzinho. Então peguei Leviatã, depois um outro que nem lembro o título. Foi o fim. Paul Auster me parecia banal, arbitrário, com uma prosa do tipo sopa de serragem. Como uma fraude dessas podia ser tão incensada? Apenas Paulo Hecker Filho, famoso por suas críticas duronas, compartilhava minha opinião. Agora, tantos anos depois, dou com um artigo do James Wood, no blog do Instituto Moreira Salles, chamado “Covas rasas: os romances de Paul Auster”. Estava tudo ali, com exemplos, com argumentos, a exposição de uma mediocridade constrangedora louvada por décadas pelos resenhistas.

Graça

Uma das observações mortais do James Wood: Paul Auster só é engraçado por acidente.

Breguice

Paul Auster não só não é sofisticado, como frequentemente é brega. Quem teria coragem de escrever com seriedade esta fala de um dos personagens de Invisível: “A guerra é a expressão mais pura e vívida da alma humana”. O Conselheiro Acácio na certa teria um orgasmo. Capaz até de botar uma batata na boca e reler a frase em voz alta.

Velhas anotações

Remexendo numas pastas, pra botar fora um pouco desses papéis que se acumulam não sei como, achei umas anotações tão amareladas quanto a folha em que estavam escritas na bela letra da minha velha Hermes Baby. Me desculpem a fraqueza, mas, antes de jogar tudo no lixo, copiei algumas:

1. Apenas os que não acreditam no amor se matam por amor: os que acreditam dão uma choradinha, limpam o nariz, botam mertiolate no peito e esperam, calmamente, que o treco aconteça de novo.

2. Um momento de fraqueza num crepúsculo. Os crepúsculos foram feitos pra momentos de fraqueza.

3. A gente sempre acaba fazendo um papel principal. Nem que seja por uma temporada de dois ou três dias.

Igualdade

Os homens são todos iguais? Me lembrei disso hoje, ao escovar os dentes, pensando em vários desdentados. Segundo o Ivan Lessa, se somos todos iguais, Deus não passa de uma enorme copiadora Xerox. Ele dizia que não só não somos todos iguais como seria bastante inconveniente se fôssemos. Imagina, por exemplo, se todos nós fôssemos ponteiros-esquerdos do Peñarol. Me parece um modo bastante delicado de colocar a questão.

Agora, logo que a fantasia da igualdade a ferro & fogo se desfaz, as pessoas tratam de apontar para outro alvo: somos todos iguais perante a lei. Sim, em teoria. Na realidade, há um pequeno problema: os pobres, ou a culpa dos pobres. Toda criança, com dois anos de escola infantil, se dá conta: a culpa dos pobres é mais visível.

Vírus

Se o título do e-mail vem com dois pontos de interrogação, eu deleto. Não falo com gente que usa dois pontos de interrogação. Dois de exclamação já são suficientemente complicados.

Autor

Ernani Ssó

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