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Diante dos cadernos bês

Se me permitem a franqueza, vamos lá: estou de saco cheio da literatura brasileira, ou mais, estou de saco cheio da literatura em geral. …

Se me permitem a franqueza, vamos lá: estou de saco cheio da literatura brasileira, ou mais, estou de saco cheio da literatura em geral. Todo dia sai um livro importante. Todo dia se fala de um novo escritor muito, mas muito importante — você é um leproso intelectual se não o ler rapidinho. Haja lugar na história da literatura.

Todo dia vejo acadêmicos ou jornalistas ou blogueiros exercitando uma seriedade acachapante sobre esses livros e sobre esses escritores importantes. Não sei como eles mesmos, depois de dizerem o que dizem, têm coragem de abrir esses livros, de ler esses autores: parecem o analfabeto trêmulo com a mão sobre a Bíblia. Soletrou uma palavra errada, vem dilúvio ou anjo com espada de fogo. Perdeu uma alusão, virou estátua de sal. Ore, enlevado, e subirá aos céus, onde tomará o chá das cinco com os imortais.

Eu fora. Eu nunca gostei de livro importante. Gosto é de livro bom de ler. Nunca gostei de escritor importante. Gosto de amigos que me confessam segredos inconfessáveis, que não querem me converter a nada, que só querem me contar coisas que aconteceram com umas pessoas e com quem posso rir até em velório. Gosto de amigos com quem posso discutir, brigar e, meio bêbados, sair pelas ruas cantando aos brados de madrugada.

Gênios

O mundo está cheio de gênios. Ou pelo menos os jornais, as revistas, os blogs. Gênios do cinema, da música, da literatura. Até a Vó do Badanha, se morreu recentemente, é gênio. Sabe-se, a morte dá uma envernizada nos defuntos: a moral, o intelecto, às vezes a beleza. Apesar do que me garante o Houaiss e o Caldas Aulete, a palavrinha não quer dizer mais nada. Até de gozação já tenho medo de usá-la.

Gênios de novo

Cynara Menezes, na Carta Capital: “Invejamos os argentinos. ‘O cinema argentino, esse que é bom’, dizemos, ‘o nosso é ridículo, patético’, sentimos vergonha, rimos de nós mesmos. É verdade, a Argentina possui um bom cinema, mas qual o cânone utilizado para compará-lo ao cinema brasileiro? Nosso cinema é inenquadrável. Em que gaveta colocar, por exemplo, um José Mojica Marins, o Zé do Caixão? Pode-se dizer que o cinema dele é ‘tosco’, ‘B’, ‘mal-filmado’, ‘mal-interpretado’, mas quem ousará negar que se trata de um gênio?”.

Só mesmo nosso patriotismo pode levar a frases como esta: o cara é tosco, mas é gênio. Como dizia o Jaguar, na saída do cinema, depois de assistir a um filme brasileiro: “O filme é uma merda, mas o diretor é genial”. É isso mesmo. Tudo porque os diretores brasileiros dão entrevistas fantásticas, explicando as intenções que depois nos matamos tentando encontrar no filme. Nosso cinema é meio como as instalações nas bienais de arte. Sem explicação não temos a menor ideia do que estão falando.

Cynara de novo

Como Zé do Caixão faz sucesso nos Estados Unidos com adolescentes com um nível intelectual tipo Bart Simpson, ela acha que os brasileiros enfim reconhecem o talento do homem. Desde quando sucesso comercial é prova garantida de talento, fora o talento de vender bem um produto? Cynara lembra nosso famoso complexo de vira-lata — grande sacada do Nelson Rodrigues —, que nos faz invejar e idolatrar tudo o que é estrangeiro. Peraí. A pior face do nosso complexo de vira-latas é a que nos leva a achar genial qualquer baboseira made in Brazil.

Deu no jornal de novo

“Cresce potencial de consumo de idosos.” Estão consumindo até idosos agora? O capitalismo é fogo mesmo!

Autor

Ernani Ssó

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