Há algo de podre no reino televisivo da Dinamarca? Pode ser. Mas a série Forbrydelsen, criada por Søren Sveistrup e estrelada pela sensacional Sofie Gråbøl, é tudo de bom.
Forbrydelsen mistura um crime sexual tenebroso com política na medida certa, sem apelações, mais insinuando que mostrando. Os personagens parecem gente de verdade e os atores, ao contrário do que acontece muito na tevê brasileira, não representam a si mesmos disfarçados mal e porcamente. Há muitos silêncios, mas esses silêncios, ao contrário dos silêncios do Godard — que davam tempo pra gente dar uns amassos na namorada ou ir comprar balas —, estão cheios de tensão. Melhor: podemos sentir a emoção que os personagens se esforçam para manter represada atrás de uma cara impassível.
A história é narrada com um domínio total e sem ostentação nenhuma. Cada episódio revela alguma coisa nova, construindo aos poucos o retrato dos personagens e de toda uma sociedade, na aparência muito organizada e certinha. Não tem ação frenética, com correrias de carro e ninjas subindo pelas paredes, como as séries americanas, mas não dá pra piscar: jamais perdemos o interesse. A ação frenética, por sinal, é uma das formas do tédio, um meio de encher o vazio sem dizer nada, como ficar descrevendo os trajes e as paisagens nos livros. Em Forbrydelsen não há ponto sem nó, como dizia o alfaiatezinho valente antes de se tornar rei.
Forbrydelsen faturou uma porção de prêmios (como o BAFTA, a versão inglesa do Emmy), virou cult na Inglaterra e foi refilmada pelos americanos. Como fizeram antes com filmes como Os sete samurais, Dança comigo e Perfume de mulher, por exemplo, os americanos americanalharam a história. Por que esses gringos não se limitam a estragar as próprias coisas que um dia fizeram direito?
A série original passa na GloboSat HD, a versão gringa no canal A&E. Mas as duas aparecem com o título em inglês: The killing. Estão bem adiantadas. Mas, paciência, qualquer dia desses começam a passar de novo. Tevê vive de repetição.
Simplicidade
Esses tempos alguém disse que meu texto era simples. É verdade, mas me senti meio incomodado, como aquela garota que é considerada simpática ou interessante porque não é bonita. Acho que fui atingido pela certeza de que a pessoa não percebia a trabalheira que dá ser simples. No fundo da condescendência dela, estava o pensamento: assim até eu. Aí entendi, na carne, o que leva tanta gente a escrever de modo obscuro ou rebuscado.
Lembrança do Quintana
A nota anterior me lembrou do Quintana. Fazia meses que não lembrava do Quintana. Ficar meses sem lembrar do Quintana é uma espécie de pecado.
Enfim, lembrei de uma das minhas frases favoritas dele, que cito de memória: erram de modo tão complicado que seria mais fácil fazer certo.
Deu no jornal
o0o “Coreia do Sul proíbe menores de 18 anos em show de Lady Gaga.” Parece que vou ter de mudar minha opinião sobre a Coreia do Sul. o0o “Morre Vidal Sasson, o cabeleireiro que revolucionou os penteados.” Como? Foi esse miserável que acabou com o coque-banana? Tomara que tenha morrido careca. o0o “Incontinência urinária prejudica o dia a dia.” Sim, claro, mas menos que a fecal. Agora, dureza mesmo é a incontinência verbal. Assista a uma hora da TV Senado e tire a prova. o0o
Presente
Recebi um e-mail com este título: “Um presente de Deus pra você”. Eu fora. Não conheço esse cara.

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