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A grama é burguesa, dizia Mao

Estou lendo, com mais de uma década de atraso, Cisnes selvagens — três filhas da China, de Jung Chang (Companhia de Bolso). Trata-se de …

Estou lendo, com mais de uma década de atraso, Cisnes selvagens — três filhas da China, de Jung Chang (Companhia de Bolso). Trata-se de uma autobiografia romanceada, que começa com os bisavós de Chang, passa para os avós e os pais até chegar a ela e seus irmãos. Temos assim um quadro nítido da China sob a invasão japonesa e sob a ditadura do Kuomintang, seguida da de Mao. É assustador: mudam os regimes, mas a brutalidade é praticamente a mesma. Ou não. A de Mao foi maior: teve mais tempo para se expandir e se aprimorar.

Me lembro que na adolescência ouvi referências à Revolução Cultural. Nada de fatos. Apenas elogios vagos, sublinhados por uma saudade do que nunca viveriam, porque as pessoas que falavam não estavam mais bem informadas que eu. Não me lembro se eu conseguia imaginar o que poderia ser uma Revolução Cultural, mas, fosse o que fosse, eu não cheguei nem perto da verdade.

Pra começo de conversa, a Revolução Cultural do Mao nunca foi revolução nem teve nada de cultural. Foi apenas um meio de se assegurar o poder absoluto. Um resumo? Milhões de jovens ignorantes, vestidos todos de cinza ou azul, queimando livros e espancando pessoas, às vezes até a morte. Os motivos não importavam. Como diz um ditado chinês, se você quer condenar alguém, as provas aparecem.

Alguns atos revolucionários: a senhora Mao, uma atrizinha de quinta categoria, proibiu que se passassem filmes e se encenassem peças, fora umas que tratavam da “revolução”. Assim mesmo um diretor foi preso por causa da maquiagem de um personagem: estava exagerando o sofrimento dos revolucionários. Mao mandou acabar com os gramados e os jardins: grama e flores são burguesas. Deviam plantar repolhos — repolhos são camponeses. A guarda vermelha trocou nomes de ruas: a embaixada da Inglaterra ficou na rua Anti-imperiliasmo; a da Rússia, na rua Antirrevisionismo. Em alguns lugares tentou-se que se parasse no sinal verde e se avançasse no vermelho e se dirigisse pelo lado esquerdo. Mas como na Inglaterra se dirige pelo lado esquerdo, o lado esquerdo não pareceu revolucionário o suficiente e se ficou com o direito mesmo.

Os comunistas fizeram várias coisas boas na China. Mas essas coisas foram soterradas pela barbárie e pelo absurdo. Parece idiota, mas no começo não levaram em conta o que as pessoas têm de pior — a burrice, a ânsia de poder, a violência — e a seguir, como era de se esperar, usaram isso para seus próprios fins.

Jung Chang deve exagerar às vezes. Mas e daí? Quando as mortes atribuídas ao regime de Mao são contadas aos milhões…

Sorrisos de Hollywood

O sorriso mais feio, na minha opinião, é o da Julia Roberts. Só encontra páreo no da Barbra Streisand. Mas e o mais bonito? Depois de uma pesquisa seguindo todos os passos recomendados pela ciência, concluí que é o sorriso da Katherine Heigl. Além de bonito, o sorriso dela é extremamente perigoso. Pelo menos, se uma mulher sorrisse daquele jeito pra mim, eu a pedia em casamento na hora, sem querer saber mais nada, nem o nome dela. Nem sei se a Katherine Heigl é uma boa atriz. Que me importa? A danada é de uma simpatia capaz de desarmar até o Nietsche nos dias de enxaqueca.

Correções automáticas

Eu uso muito o recurso das correções automáticas do Word. Cada coisa que digito errado — e eu digito um bocado de coisas erradas — mando corrigir automaticamente nas próximas vezes. Mas quando troco de computador, me chateio enormemente, porque tenho de abrir a caixinha aquela e tirar as correções que vêm com o programa. Sei que tem muita gente que escreve chapéu com xis ou obsessão com cê e cedilha ou uso com zê. Mas me irrita só de pensar que alguém tenha enfiado essas idiotices na minha máquina. Pra piorar, a pessoa que fez isso não sabe português, já que manda corrigir testo por texto, por exemplo. Espero que o fantasma do Houaiss vá puxar os pés dela toda noite.

Autor

Ernani Ssó

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