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Sexo no cinema

Li na internet uma materiazinha com a Nathalia Dill sobre sexo no filme “Paraísos artificiais”. Achou mais fácil fazer as cenas que assistir depois. …

Li na internet uma materiazinha com a Nathalia Dill sobre sexo no filme “Paraísos artificiais”. Achou mais fácil fazer as cenas que assistir depois. Interessante. Mas o resto era aquele papo de sempre.

Não me entendam mal. Não tenho nada contra sexo no cinema, ou num livro, ou mesmo no banco traseiro de um Fusca. Nem sexo, nem violência. Se não entram de forma gratuita, apenas por apelação, está tudo certo. Como disse o Juan Claudio Lechín, o romancista boliviano, se for gratuito, é pornografia. Pra ele, grande parte das cenas violentas mostradas nos noticiários é pornografia: é a morte pela morte, exposta fora de contexto, repetida até a indiferença. Acho que concordo.

O que me chateia são as atrizes falarem em arte, no drible da culpa por terem tirado a roupa e dado uns amassos em troca de notoriedade e grana. Quase nunca é arte. Quase nunca é nem mesmo artesanato. Acontece que as mulheres gostam de se exibir. Acontece que os homens gostam de ver. Vamos aceitar isso e, por favor, deixemos a arte em paz.

Querem arte e sexo ao mesmo tempo, o tempo todo? Vejam O império dos sentidos, de Nagisa Oshima. Mas já vou avisando: o filme é angustiante pra ca…, digo, pra cachorro.

Lida a matéria, fui conferir os comentários dos leitores. Nunca deixo de ler. Sou fascinado pelas opiniões dos leitores da internet. É assombroso o nível de ignorância e confusão mental. A coisa ainda piora quando o comentário é indignado. Se os caras, quando estão calmos, não pensam direito, imagina com o sangue em ebulição.

Dessa vez, entre a inarticulação costumeira, topei com uma obra-prima assinada por um tal de doutor Célio. Espero, no fundo da minha alma, que seja gozação. Olhem só (copio a frase sem corrigir ou acrescentar nenhum erro de português): “vemos que o diretor dá uma nova roupagem no surreal x o realismo cru mesclado na transcendencia do ‘quando’ e do ‘porque’ fatalizando com muita propriedade o neo pragmatismo articulado com as ‘novas’ diligencias do sub consciente coletivo ou não”.

Nem pra ver a Nathalia Dill pelada eu boto os pés no cinema. Vá que o doutor Célio tenha razão.

Forma e conteúdo

Quando a confusão mental se expressa através da linguagem acadêmica, pode crer, o perigo é duas vezes maior.

No fundo, no fundo…

…o cinema foi inventado pra mostrar mulher pelada e cavalos correndo.

Juan Claudio Lechín

Ele tem um bom romance, A gula do beija-flor, que traduzi pra Bertrand. Ganhou um prêmio na Bolívia e foi sucesso na Argentina. Aqui passou despercebido. Ainda teve uma resenha muito, mas muito do contra, do Luiz Horácio, no jornal Rascunho.

Horácio escreve com tanta indignação que chega ao ponto de dizer que o livro é um “abominável manual do canalha machista, guia do usuário pedófilo e da literatura de botequim”. Infelizmente eu li a resenha com grande atraso, senão teria metido minha colher, pra demonstrar que Horácio não entendeu patavina e podia ter poupado sua indignação, sem falar nos adjetivos.

A ciência devia estudar a relação entre os indignados e o uso e abuso de adjetivos. No caso dessa resenha, a indignação e os adjetivos estão a serviço das afirmativas do Horácio, já que não há nenhum argumento nem prova do que diz.

Dou apenas uma palinha. Num dos capítulos, se conta a história de uma senhora de idade que engana um rapaz. Horácio acha que o rapaz humilhou a velha. Na sua ânsia de enxergar machismos, Horácio não vê o óbvio e engole sem mastigar as ironias de Lechín.

Como dizia o Barão de Itararé, não se assuste ao ver alguém falando grosso. Pode não ser uma autoridade. Anda muita gente encatarrada por aí.

Autor

Ernani Ssó

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