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O hábito do orgasmo

Você come por hábito? Bebe por hábito? Tem orgasmo por hábito? Se a resposta é sim, você deve ser alienígena. Corra pra pedir emprego …

Você come por hábito? Bebe por hábito? Tem orgasmo por hábito? Se a resposta é sim, você deve ser alienígena. Corra pra pedir emprego pro George Lucas.

A comida, a bebida e o sexo são necessidades e prazeres. Então não me venham falar em hábito de leitura, que eu chuto o pau da barraca, porque a leitura está na mesma linha da comida, bebida e sexo. Se querem falar em vício, tudo bem, mas hábito? Ler não está entre atividades como escovar os dentes, se vestir só de preto ou beber uma xícara de leite morno com uma pitada de canela antes de dormir.

Claro que você pode sobreviver à base de farinha de mandioca e água do Guaíba, como também pode passar em branco em matéria de sexo ou de leitura. O fato de isso botar tua vida praticamente no nível da vida de um inseto ou verme diz muito, não?

Os vestígios do dia

Achei o romance O desconsolado num saldo, na Feira do Livro, ano passado. A capa não é nada convidativa. Nem o título, cá pra nós. Pra completar, na minha santa ignorância, eu nunca tinha ouvido falar em Kazuo Ishiguro. Mas como tenho curiosidade pela literatura japonesa e como o livro custava dois reais, comprei. Foi minha melhor compra em anos.

Com simplicidade e uma contenção extrema, Ishiguro conta as andanças de um pianista antes do concerto que dará ou não dará numa pequena cidade alemã, se é que ele está lá mesmo. Nada faz sentido ou, muito pelo contrário, faz todo o sentido, mas o sentido dos sonhos, com distorções monstruosas, onde o tempo, o espaço e as pessoas se duplicam, se imbricam e se desfazem feito espuma. Ishiguro despista o leitor a cada cena. Você até pode saber que determinada coisa não acontecerá ou acontecerá, mas jamais acerta no modo como não acontece ou acontece. Agora, o melhor é que, se aconteceu, por mais surpreendente que seja, você pensa: tinha de ser assim. É preciso muita esperteza pra entrever a realidade de onde Ishiguro tirou a sombra ou a neblina com que encena seu teatro.

Como disse aqui, esses dias, O desconsolado seria perfeito se fosse mais curto. Ishiguro se deleita prolongando o pesadelo com tantas minúcias que desejamos que seu personagem acorde, se é que está dormindo, ou tome uma atitude que bote o mundo nos eixos. Mas ele me fisgou.

Saí em campo e achei Os vestígios do dia, que virou um filme do James Ivory, com Anthony Hopkins e Emma Thompson. O romance começa morno, mas depois se torna hilariante. Aqui a realidade é real, digamos, mas o jeito de narrar de Ishiguro segue capcioso, falando de uma coisa pra dizer outra, escondendo pra mostrar. Não vou dizer mais nada. Vão ler o livro, vão ver o filme.

Casamentos de comédia

Quando não correremos mais o risco de assistir a comédias em que o noivo ou a noiva desiste do casamento já no altar? Acho que nunca. Enquanto houver uma câmera na mão e nenhuma ideia na cabeça, o perigo será iminente.

Fico me perguntando se alguma vez um casamento de verdade foi desfeito assim. Tenho minhas dúvidas. Pela minha experiência, as pessoas aguentariam firmes, pra evitar o constrangimento dos convidados e da família. Não pagar mico é um sentimento mais forte que o amor, tenho dito. Sem falar que mesmo A Velha de Dois Corações, que não sabia se se casava ou comprava uma motoneta, não deixaria pra se decidir no último segundo. A cerimônia na igreja é apenas símbolo, a representação gráfica de uma situação encerrada.

Mas, claro, essas cenas das comédias nascem, segundo o Almanaque Capivarol, de um medo tão antigo quanto o casamento e de uma crença no amor que beira à patetice mais tacanha. Até aí se casou e se divorciou o Neves. Este é o ponto, pra mim: com o divórcio tão popular, como os roteiristas ainda podem apostar num desfecho desses? Se pelo menos a coisa fosse engraçada, vá lá.

Autor

Ernani Ssó

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