Triste, patético? Pode ser, mas me parece meio forte para classificar um episódio que é muito mais bisonho e inócuo do que qualquer outra coisa. Falo de um texto da Carol Bensimon para o Blog da Companhia e as reações que causou, contra e a favor (poucos escreveram com a clareza necessária). Vamos situar a encrenca.
A Carol falou de uma série de coisas de que não gosta em filmes e livros. Até aí, nada demais. Mas não tentou explicar em momento algum por que gosta ou deixa de gostar, nem fez uma ressalva do tipo olha, pessoal, meu gosto é meu, não o proponho como padrão universal. Ela simplesmente lançou suas opiniões, ou mais, porque, lá pelas tantas, afirmou com todas as letras: “Se eu detesto um livro, os argumentos caem em cascata. Racionais. Convincentes. Sou capaz de fazer uma pessoa que leu o mesmo livro mudar de opinião, tamanha minha segurança ao expôr (sic) minha visão sobre a obra”.
Alguns leitores ficaram puxando o saco, como sempre. Mas outros começaram a pegar no pé da moça. Em resumo, foi chamada de arrogante e até de boba, adolescente, ou que estava fazendo pose de descolada. É de estranhar? Se você dá uma opinião sem mostrar respeito, nem argumentar, pode crer, lá vem chumbo grosso. Não, peraí. Mesmo que sua opinião seja dada com respeito e argumentos, se essa opinião contraria o feijão com arroz geral, pode crer, vem chumbo do mesmo jeito.
Sentindo-se acossada, a Carol postou um comentário dizendo que aquilo tudo não devia ser levado tão a sério, era apenas um diário íntimo. A emenda foi pior que o soneto, como se dizia no tempo em que nossas tias liam e escreviam sonetos. Se era um diário íntimo, não devia ser publicado, confere? Se foi publicado por livre e espontânea vontade, tornou-se discurso no alto da tribuna. Pior, o Blog da Companhia é um espaço privilegiado, como notou alguém, então é preciso pensar um pouquinho antes de sair dizendo qualquer coisa que passa na cabeça da gente. Papo de mesa de bar é outra coisa.
Mas a Carol não ficou por aí. Pediu socorro no twitter, dizendo que estava sendo vítima de um massacre. Claro que não era pra tanto, mas, pelo visto, ela é dramática. Não deu outra: chamaram-na de menina mimada. É de estranhar? A Carol cantou de galo: garantiu que tem argumentos em cascata, muito convincentes e racionais, para provar o que pensa. Mais: que é capaz de converter outras pessoas, tamanha a sua segurança ao expor sua visão. Então, a troco de quê não despejou sua Iguaçu de racionalidade? Os demais leitores, não sei, mas eu estou louquinho pra ser convertido à visão da Carol. Ela pode começar me convencendo que sou um idiota por gostar de livros com muitos diálogos, quando são bons, porque acho uma das coisas mais difíceis de fazer. Sou muito sensível a argumentos convincentes.
Das duas, uma: ou a Carol não tem têmpera para polemista — quer dizer, na hora do pega pra capar dá um branco e a cascata se congela —, ou ela contou vantagem. De qualquer forma, botar toda essa banca e esperar simpatia, convenhamos, foi um pouco mais do que ingênuo.
Opinião
Vivo dando minha opinião, mesmo quando não me pedem. Mas tento argumentar sempre com a maior clareza possível. Na verdade, as opiniões não me importam tanto — são, digamos, um pretexto para argumentar. Aí é que está o prazer, aí está a arte de usar os miolos. Agora, como raramente falo sem ironia, raramente pensam que sou respeitoso. Paciência. Se alguém acha que não há mais desprezo na condescendência do que na argumentação lógica, bem, não merece muito respeito mesmo.
Deu no jornal
Manchete: “Cigarro matou seis milhões de pessoas em 2010, segundo estudo”. Pena que não foram uns três cigarros. O controle populacional teria dado um bom passo adiante.
Indústria cultural
Nunca, no Brasil, tantos livros ruins se tornam piores filmes.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial