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Queda de braço com Cervantes

Há quase dois anos, traduzo as aventuras de dom Quixote de la Mancha, para a Penguin-Companhia. Agora acerto os últimos detalhes. Foi um trabalho …

Há quase dois anos, traduzo as aventuras de dom Quixote de la Mancha, para a Penguin-Companhia. Agora acerto os últimos detalhes. Foi um trabalho muito divertido, mas mais duro que sair no braço com gigantes ou moinhos de vento. Tornar legível o espanhol do século dezessete, conseguir reproduzir a energia do texto de Cervantes, sem falar do seu humor, exige algum talento, com certeza, mas exige acima de tudo uma paciência de água mole em pedra dura, as pilhas do desconfiômetro sempre carregadas e nunca, nunca ter preguiça de pesquisar, mesmo que a gente pense que sabe tudo sobre o assunto. É aquele velho negócio: mais transpiração que inspiração. Hoje, a sensação que tenho não é de ter traduzido perto de mil páginas e sim de ter escrito umas quinze mil e numa língua que não conheço direito.

Como amostra, segue abaixo um trecho do capítulo III, da primeira parte, quando dom Quixote vela as armas e é armado cavaleiro pelo dono da estalagem:

 (…) Assim, em seguida, o estalajadeiro ordenou que velasse as armas num pátio grande ao lado da estalagem. Recolhendo todas as peças da armadura, dom Quixote as empilhou sobre um bebedouro junto a um poço e, enfiando o braço em sua adarga, empunhou a lança. Com postura galante, começou a andar diante dele. Nesse momento, começava a cair a noite.

O estalajadeiro contou a todos que estavam na estalagem a loucura de seu hóspede, a vigília das armas e a cerimônia para armá-lo cavaleiro. Admiraram-se de tão estranho gênero de loucura e foram espiar de longe, e viram que dom Quixote andava com calma umas vezes e outras, escorado à sua lança, punha os olhos nas armas, sem desviá-los por um bom tempo. Já era noite fechada, mas com tanto luar que podia competir com o dia, de modo que tudo o que o cavaleiro estreante fazia era visto muito bem por todos. Nisso, um dos tropeiros resolveu dar água à sua manada de mulas e, para isso, seria preciso tirar a armadura que estava sobre o bebedouro. Dom Quixote, vendo-o chegar, disse em voz alta:

            — Oh, tu, quem quer que sejas, cavaleiro atrevido, que chegas para tocar as armas do mais valente andante que jamais empunhou espada! Olha o que fazes e não as toques, se não queres deixar a vida como paga por teu atrevimento.

O tropeiro não fez caso dessa conversa (mas seria melhor que tivesse feito então, para não ter de fazer depois); pegando a armadura pelas correias, jogou-a longe. Dom Quixote levantou os olhos para o céu e, pelo visto, com o pensamento posto em sua senhora Dulcineia, disse:

            — Socorrei-me, minha senhora, na primeira afronta que se oferece a este vosso peito vassalo: não me faltem neste primeiro transe vosso favor e amparo.

E dizendo essas e outras coisas semelhantes, soltou a adarga, levantou a lança com as duas mãos e deu com ela um golpe tão forte na cabeça do tropeiro, que o derrubou no chão tão desfeito que, se desse outro, não haveria necessidade de cirurgião que o tratasse. Feito isso, recolheu a armadura e voltou a andar com a mesma calma de antes. Dali a pouco, sem saber o que tinha acontecido (porque o tropeiro ainda estava aturdido), chegou outro com a mesma intenção de dar água às suas mulas e tirou a armadura para desimpedir o bebedouro. Dom Quixote, sem falar uma palavra e sem pedir favor a ninguém, soltou outra vez a adarga e outra vez levantou a lança e, sem fazê-la em pedaços, fez mais de três da cabeça do segundo tropeiro, porque abriu-a em quatro. Com o barulho, acudiram todas as pessoas da estalagem, entre elas o estalajadeiro. Dom Quixote olhou para todos, enfiou o braço em sua adarga e, com a mão na espada, disse:

            — Oh, senhora da formosura, coragem e vigor do meu coração debilitado! Agora é o momento para que voltes os olhos de tua grandeza para este teu cavaleiro cativo, que tamanha aventura está esperando.

Animou-se tanto com isso que pensou que se o atacassem todos os tropeiros do mundo, não daria um passo atrás. Os companheiros dos feridos, vendo-os naquele estado, começaram de longe a chover pedras sobre dom Quixote, que se defendia com sua adarga o melhor que podia e não ousava se afastar do bebedouro, para não desamparar as armas. O estalajadeiro gritava que o deixassem, porque já tinha dito como era louco e que por ser louco se livraria, mesmo que os matasse a todos. Dom Quixote gritava mais alto ainda, chamando-os de infiéis e traidores, e que o senhor do castelo era um covarde e malnascido cavaleiro, pois consentia que se tratassem os cavaleiros andantes dessa maneira; e que se houvesse recebido a ordem de cavalaria, ele o faria entender sua perfídia.

            — Mas de vós, canalha baixa e vil, não faço caso algum: apedrejai, chegai, vinde e ofendei-me enquanto puderdes, que vereis o pagamento que levareis por vossa loucura e insolência.

Dizia isso com tanto brio e intrepidez, que infundiu um terrível temor nos que o atacavam. Tanto por isso como pelos argumentos do estalajadeiro, deixaram de apedrejá-lo, e ele então permitiu que retirassem os feridos, voltando a velar suas armas com a mesma placidez e pachorra do começo.

O estalajadeiro não gostou das travessuras do seu hóspede e resolveu se apressar e lhe dar de uma vez a maldita ordem de cavalaria, antes que acontecesse outra desgraça. E assim, aproximando-se dele, se desculpou pela insolência daquela ralé, que agira sem que ele soubesse coisa alguma, mas que fora bem castigada pelo seu atrevimento. Repetiu-lhe que naquele castelo não havia capela, mas que para o que restava fazer tampouco era necessária, pois o ponto principal para ser armado cavaleiro consistia no pescoção e na espadada, conforme ele tinha notícia do cerimonial da ordem, e que aquilo podia ser feito no meio do campo, e no que dizia respeito a velar as armas, estava quite, porque duas horas eram suficientes, e ele velara mais de quatro.

Dom Quixote acreditou em tudo e disse que estava pronto para obedecer, que concluísse tudo com a maior brevidade possível, porque se o atacassem outra vez, e se já estivesse armado cavaleiro, não pensava deixar uma pessoa viva no castelo, exceto aquelas que ele lhe mandasse, que por respeito perdoaria.

Precavido e medroso, o castelão trouxe logo um livro, onde anotava a palha e a cevada que dava aos tropeiros, e, com um toco de vela que lhe trazia um rapaz, mais as duas ditas donzelas, aproximou-se de dom Quixote e mandou-o ficar de joelhos, lendo no livro da contabilidade como quem dizia uma oração devota. Pela metade da leitura levantou a mão e deu no pescoço do fidalgo um bom golpe e depois, com sua própria espada, uma espadada gentil nas costas, sempre murmurando entre dentes, como quem rezava. Feito isso, mandou que uma das damas lhe cingisse a espada, coisa nada fácil, mas que ela fez com muita desenvoltura e discrição, sem cair na risada a cada passo da cerimônia; é que as proezas do novo cavaleiro que já haviam visto mantinham todos na linha.

Autor

Ernani Ssó

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