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Os bofes do Ricardo Piglia

A gente lê “Os três mosqueteiros” e nunca sente que Alexandre Dumas tenha se esforçado pra escrever uma linha. Tudo flui. Tudo parece fácil, …

A gente lê “Os três mosqueteiros” e nunca sente que Alexandre Dumas tenha se esforçado pra escrever uma linha. Tudo flui. Tudo parece fácil, enfim, como uma galinha botando um ovo, como diz o grande Sérgio Faraco.

Em “O vermelho e o negro” ou “A cartuxa de Parma” é a mesma coisa, embora a aventura não tenha nada de capa e espada. Stendhal nos fisga sem truque nenhum. A prosa dele é de uma clareza e precisão assombrosas, mas nem nos damos conta de que lemos. Só depois, pensamos: como foi mesmo que esse desgraçado escreveu? Então haja releitura.

“Em caso de desgraça”, do Georges Simenon, encontramos mais uma vez a facilidade, a fluência. Numa linha tudo tem relevo: emoções, gestos, ambientes, personagens. Há uma sensação de solidez alucinante. Mas Simenon parece fazer isso com uma das mãos nas costas. Como dizia André Gide sobre o próprio Simenon: o topo da arte é ir mais fundo e mais longe sem parecer ir.

Aí a gente folheia “Blanco nocturno”, ou “Alvo noturno”, como saiu em português pela Companhia das Letras. O que mais se nota é a respiração do Piglia entre uma linha e outra. O coitado bota os bofes pela boca a cada parágrafo.

A descoberta da América

Num ensaio, Ricardo Piglia diz — me deem um desconto, cito de memória — que um bom conto conta duas histórias, uma aparente e outra secreta. Isso é citado infinitamente por hordas de escritores como se se tratasse da descoberta da América. Não entendo por quê. A literatura faz isso desde sempre. Até “Os três porquinhos” conta uma história aparente e outra secreta.

Picuinha

Quando Piglia foi condenado pela Justiça, naquele negócio do prêmio Planeta, escreveu uma defesa num jornal, ou melhor, uma acusação a Gustavo Nielsen. Tudo não passaria de uma picuinha literária, que devia ser resolvida entre escritores, não no tribunal. Nielsen seria apenas um pobre e ridículo ressentido. Piglia não só não rebateu nenhuma das provas da trapaça, como inventou ataques que não aconteceram. O caso em questão não botava em dúvida o talento do Piglia, apenas o seu comportamento nessa premiação. Mais: na audiência de conciliação, quando bastava uma palavra do Piglia pra encerrar o processo, ele não só não compareceu como nem avisou que não iria. É triste, mas, como já disse aqui mesmo, talento não escolhe caráter.

Bebidas e prosas secas

Tony Bellotto: “Por falar em bafômetro, é irônico que a chamada prosa seca tenha sido inventada por dois escritores que viviam encharcados, os beberrões Ernest Hemingway e Dashiell Hammett”. Onde ficam escritores bem anteriores como Petrônio, Stendhal ou Mark Twain? Por sinal, sem Twain, seu Ernest e seu Dashiell teriam tido um pouco de dificuldade no caminho da secura.

Há muitos outros exemplos. Temos até um brasileiro, muito elogiado e pouco imitado: Machado de Assis. Esse papo todo me lembra de uma velha pergunta: quem inventou a almôndega?

Outra coisinha: há confusão entre uma prosa seca, sem frescura e sem confetes, e uma prosa tipo roteiro de cinema, que só mostra os movimentos e caretas dos personagens, sem emoção ou pensamento. Na seca, o escritor opta por economia, silêncio, insinuação. Na outra, a opção é deixar de fora todo elemento mais perigoso, de apreensão mais complicada.

Agora, pior que a prosa tipo roteiro é a pretensamente literária. O escritor supre o vazio com frases floridas. As emoções descritas são sempre nítidas, sem oscilação: amor, ódio, toma lá, dá cá. Os enredos também seguem no mesmo ritmo. É como viajar de trem. Você vai em linha reta e sabe exatamente quantas estações há no caminho e a quantos quilômetros elas ficam. Se não chegar no horário, pode crer, a diferença é de poucos minutos.

Autor

Ernani Ssó

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