Jorge Luis Borges: “Proust emprega o epíteto cardíaco para se referir a coisas do coração como órgão do sentimento. Acho que é um erro: ‘Apliquei, no lombo canino, uma carícia manual’”.
Gostei da brincadeira:
● Exerci o sentido da visão sobre os grandes glúteos de Raimunda.
● Ele a despiu ocularmente.
● Romeu para Julieta: “Você é minha inquilina cardíaca”.
● Eles se despediram com um desesperado contato bucal, lingual e sublingual.
● Devido à intensa precipitação pluviométrica, ela chegou com sua vasta estrutura filamentosa ruiva encharcada.
Concisão
Uma das coisas em que todos os escritores, ou entendidos em literatura, martelam é: um texto tem de ser conciso. Não podemos desperdiçar palavras. Então me digam: por que os educadores encarnaram nesse negócio de “fazer uma produção textual”? Quatro palavras pra dizer escrever. Por trás disso, talvez esteja aquele mesmo espírito demoníaco que leva um dentista a se autodenominar odontólogo. Ou, como vi num programa político, um candidato a vereador engrossar o currículo — bom pai, esposo amantíssimo, dono de armazém — com um dado a meu ver impagável: bochófilo.
Adequação
Eu li dezenas e dezenas de histórias para o meu filho. A maioria delas eu era obrigado a ir adaptando à medida que lia, porque a linguagem era inadequada ou porque havia montes de descrições desnecessárias. Daí nasceu minha ânsia de escrever histórias que possam ser lidas em voz alta exatamente como foram escritas.
Oficina literária
Sempre que penso em montar uma oficina literária, topo com notícias como esta, que Ivan Lessa deu na sua coluna na BBC-Brasil: “No Reino Unido são editados cerca de 200 mil títulos novos de livros por ano. Duro ser editor, duro ser editado, duro, muito mais duro, ser leitor”.
O desprezo pelos contadores de histórias
Fico besta quando vejo alguém dizer, de boca cheia: “É apenas um contador de histórias”. É pouco? Uma das maldições que pesam sobre nós, brasileiros, é justamente esta: somos péssimos contadores de histórias.
Uma coisa é certa: as pessoas sempre contaram e ouviram histórias. É um negócio anterior à literatura. Se, numa dessas, a literatura acabar, pode crer, as pessoas vão continuar contando e ouvindo histórias.
Um qualquer
Hume disse que a gente é filósofo enquanto filosofa, mas depois é um homem como os outros. O que vale pra filosofia, espero, vale pra literatura e demais artes, incluindo a culinária. Ou Hume está errado? Um homem é como todos, certo, mas até por ali: o passado tem seu peso. Se eu escrevi um tratado de metafísica sou exatamente igual a um camarada que só compôs música caipira? Ele certamente fez mais sucesso e pode ser uma pessoa melhor, mas seremos iguais? E um assassino múltiplo é um assassino enquanto assassina, mas depois é como todos os outros homens?
Deus
Enfim vi num carro um bom adesivo falando de Deus: “Dirija de vagar. O encontro com Deus não é por ordem de chegada”.

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