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Deus, abóboras e vacas voadoras

Eu me lembro direitinho, como muitas crianças daquele tempo. Pra provar que o mundo era bom como estava ou que, pelo menos, seria pior …

Eu me lembro direitinho, como muitas crianças daquele tempo. Pra provar que o mundo era bom como estava ou que, pelo menos, seria pior se tentássemos mudá-lo, os adultos contavam uma historinha que consideravam exemplar. Um sujeito dizia que, se tivesse poder, faria uma reforma geral. Por exemplo, abóbora daria em árvore e as vacas voariam. Como estava sentado embaixo de uma pitangueira, providencialmente caía na cabeça dele uma pitanga e um cocô de passarinho, coisa que o fazia agradecer a Deus pelo universo ser assim mesmo.

Vamos levar a historinha a sério? Ela é uma trapaça, porque as reformas desse sujeito foram escolhidas a dedo para concluirmos o que queriam que concluíssemos. Parece papo do Sócrates, que não era muito santo, não, como querem que a gente acredite. Agora, se pensarmos na quantidade de políticos e pastores malucos propondo reformas tão idiotas como abóbora dando em árvore, realmente é de se ter medo.

Mas fico me perguntando: esse sujeito nunca ouviu falar em jaca ou em pinha? Eu prefiro levar uma abóbora na cabeça e não uma jaca. Sem esquecermos que é preferível levar cocô de vaca no cocuruto do que um raio, um maremoto, ou a própria casa. Ou o proverbial rolo de massa.

As pessoas que acreditam piamente na perfeição da criação de Deus passam um trabalho danado pra engolir os desastres da natureza. Tiveram até de inventar uma culpa transmitida de pai pra filho como a cor dos olhos: se somos culpados, merecemos isso tudo e muito mais. Melhor fechar o bico e agradecer.

Basta ler as primeiras linhas do Velho Testamento pra perceber que a coisa não ia funcionar. Deus cria um troço qualquer e vê que é bom. Sem pausa, cria outro e também vê que é bom. Sacou? Não faz nem rascunho. Não tem o menor senso crítico. Como não há concorrência pros seus produtos, tanto faz se prestam ou não. A gente que se vire. Luis Fernando Verissimo disse, sobre as obras da prefeitura em Porto Alegre, que primeiro a gente faz, depois planeja. Com a obra divina foi exatamente assim.

Custava organizar um pouco o mundo? Por que chover nos domingos e feriados, por exemplo? Na verdade, devia chover todo dia, digamos entre as três e as quatro da madrugada. Assim ninguém perderia sua lavoura nem precisaria ir de guarda-chuva pro trabalho. Melhor, com a quantidade de chuva apenas necessária, não haveria enchentes nuns lugares nem secas em outros. Estão me entendendo? Com um mínimo de racionalização, até o Brasil entraria nos eixos.

Assim bebe a humanidade

Um dos maiores problemas da humanidade é o da limonada. Os limões amadurecem na primavera. Mas quem consegue tomar limonada fora do verão? No verão temos de nos contentar com limões que foram ensilados vá saber como. Só sei que ficam nojentos. Deus, que tudo sabe e tudo vê, esqueceu da limonada. E o diabo, que quando não faz nada, chateia as moscas com o rabo, tira partido: tenta o mundo com os refrigerantes.

Desencaixe

Pelos vinte anos, eu corria de sete a oito quilômetros sem perder o fôlego. Hoje, só de pensar em correr, começa a me doer o joelho esquerdo. Segundo a folhinha, ainda não estou na melhor idade, mas já senti o pepino: você piora na melhor idade.

Pelos vinte, minha cabeça não era das piores. Hoje está bem melhor, com certeza. Ao menos o número de besteiras que me preocupam diminuiu muito e aprendi o que e como falar às mulheres. Mas, nessas alturas do campeonato, onde andam as mulheres a quem eu adoraria mostrar minha sapiência? Por aí, ouvindo a ignorância dos que estão pelos vinte ou trinta.

Luz e trevas

Será que Deus separou mesmo as trevas da luz? O mundo é tão caótico que a novela das oito passa às nove.

Autor

Ernani Ssó

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