Acho justo que entre os maiores defensores da Bíblia estejam pessoas que não a leram.
Psicoterapia reencarnacionista
Como será que funciona isso? A gente reencarna no Nero, bota fogo em Roma, toca a lira e depois volta desrecalcada? Reencarna no Clóvis Bornay e desfila de Catedral Submersa, na Messalina e dá adoidado, ou em Sócrates (no filósofo, bem entendido) ou no Aristóteles (o milionário, bem entendido) e prova o sabor da sabedoria e do poder? Gostaria de reencarnar nos três patetas — sim, nos três ao mesmo tempo —, pra testar a resistência do psicoterapeuta.
Crise de criatividade
Sempre que ouço falar em crise de criatividade nas artes plásticas, no cinema e na literatura, penso nas novas formas de enganar os trouxas que surgem todo ano. Mas a verdade verdadeira é que os trouxas vêm caindo nos mesmos golpes desde que o mundo é mundo. Os golpes novos, se examinados de perto, se mostram apenas variações de golpes antigos. Enfim, me parece que a única coisa que não está em crise é a estupidez. Ela é imensa, variada, multiforme. Uma beleza. Pena que não sei me aproveitar disso.
Gente comum
Dostoievski, se não me engano em O idiota, dizia que as pessoas comuns estão metidas em todos os assuntos, mas quase não aparecem na literatura. É verdade. Talvez seja mais difícil lidar com personagens comuns. Como arrancar boas aventuras deles? Boas falas? Enfim, como retratar alguém comum de modo que fique interessante, isto é, que fique interessante sem deixar de ser comum? Ou sem cair em caricaturas grotescas? Pior mesmo só personagens francamente estúpidos. Ou talvez não, porque dependendo do nível, a estupidez, como a loucura, é engraçada, gráfica. O problema é não deixar o folclore apagar o que há de humano no personagem: manter crível sua dor.
Gênios
Os personagens geniais também são problemáticos. Como os escritores em geral não têm nem noção do que é a genialidade, topamos com o truque mais baixo de todos: declaram que fulano é genial e esperam que acreditemos. Só que o comportamento desses personagens não demonstra patavina. Vide as dezenas de detetives pintados como gênios, começando por Sherlock, cujos rombos de lógica são constrangedores, pra dizer o mínimo. Ou o baixinho da dona Agatha Christie, com suas famosas células cinzentas, destrinchando tramas tão arranjadas que só os leitores mais simplórios chegam ao clímax, como se diz nos livros eróticos comedidos. Um dos poucos detetives considerados inteligentes que me convencem é o primeiro de todos, o chevalier C. Auguste Dupin, do velho Edgar Alan Poe.
Conselho baiano
Jorge Amado não era bobo, não. Sobre as adaptações dos livros dele pelo cinema e a televisão, disse: “Cobre caro e não veja”. Era dele também uma frase maravilhosa: “Deus é gordo”.
Vestibular
Quem diria, anos atrás um trecho de um livro meu foi usado num vestibular. Alguém me mandou a prova. Lá estava eu em quatro perguntas de interpretação de texto e gramática. Acertei três. Pra mim, um recorde em matéria de vestibular.

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