Guilherme de Almeida, o poeta, em todas as suas biografias consta como nascido em Campinas, fato com o qual sempre consentiu. Certa vez, na cidade de Rio Claro, a uns 80 km de Campinas, confidenciou para um amigo que aquela era a cidade onde nascera.
Em Campinas, Rio Claro ou algures, o fato é que, em 24 de julho de 1890, nasceu Guilherme de Andrade de Almeida, que seria poeta e, como Álvares de Azevedo, Castro Alves, Fagundes Varela e Olavo Bilac, foi mais um dos que passaram pelas “Arcadas” da Faculdade de Direito de São Paulo que, com a de Olinda, PE, são as pioneiras do Brasil, criadas por decreto em 11 de agosto de 1827.
Se “quem cala consente”, ao calar-se quanto a ser natural de Campinas, quis apropriar-se do prestígio da cidade, berço, entre outros, de Carlos Gomes, Pancetti e do ex-presidente da República Campos Sales, por sua vida e por seu talento, Guilherme de Almeida inseriu-se na seleta galeria das personalidades campineiras de todos os tempos.
Jamais imaginei que aquele elegante senhor que eu sabia quem era e com o qual cruzei muitas vezes na Rua Barão de Itapetininga, a rua “chic” do então centro paulistano, seria assunto de uma crônica minha.
Escrevo, no entanto, sem a menor pretensão de que este tributo salde o encantamento pelo múltiplo acesso que tive à sua obra poética e à definição do São Paulo constitucionalista de 1932, no seu canto Nossa Bandeira:
“Bandeira da minha terra
Bandeira das treze listras:
São treze lanças de Guerra
Cercando o chão dos Paulistas!”
ou sua introdução do haikai japonês na literatura brasileira:
“Hora de ter saudade
Houve aquele tempo…
(E agora, que a chuva chora,
ouve aquele tempo!).”
Eleito o IV Príncipe dos Poetas Brasileiros pela Academia Brasileira de Letras, onde entrou como o primeiro modernista da instituição, Guilherme de Almeida foi, inclusive, mestre dos sonetos:
“Essa que eu hei de amar perdidamente um dia
será tão loura, e clara, e vagarosa, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer luz e calor a essa alma escura e fria.”
Ele me ajudou no Francês – tradutor emérito – através de livros bilíngues como Toi et Moi, de Paul Geraldy, traduzido por ele:
“Expansões
Eu gosto, gosto de você
Compreende?
Eu tenho por você uma doidice…
Falo, falo, nem sei o que
Mas gosto, gosto de você
Você ouviu bem isso que eu disse?”
Traduziu do grego a Antígona de Sófocles, “definida como uma transcrição, em sua tentativa de criar em português a mesma beleza do original”, encenada pelo TBC, com Cacilda Becker e Paulo Autran.
Participando com o compositor Spartaco Rossi de um concurso para a escolha do hino da participação do Brasil na Segunda Guerra, ele e Guilherme de Almeida não só venceram com a Canção do Expedicionário como deixaram para a pátria o seu mais belo hino:
“… Por mais terras que eu percorra,
não permita Deus que eu morra
sem que eu volte para lá
sem que leve por divisa
esse ‘V’ que simboliza
a vitória que virá…”.
Quanto ao IV Centenário de São Paulo, cuja Comissão foi presidida por Ciccillo Matarazzo desde sua criação em dezembro de 1951, este, por desentendimentos com o então prefeito Jânio Quadros, renuncia em março de 1954, sendo que Guilherme de Almeida assumiu o posto com a responsabilidade de realizar uma extensa programação durante aquele ano e cujos festejos em julho – apenas festejos num ano de grandiosos eventos – são, até hoje, comparados apenas com os da coroação da Rainha Elizabeth II, do Reino Unido, em 1952.
Assim como nos contos de fadas, foram três dias de festejos e mais festejos, desde o primeiro meio segundo de nove de julho, 6ª feira – data da Revolução Constitucionalista de 1932 e feriado estadual – até à noite do domingo, dia 11.
São Paulo, que não pode parar, parou. Nesses três dias, dezenas e dezenas de festejos para todos os gostos e idades levaram o povo para as ruas da cidade aniversariante.
Guilherme de Almeida, que participou daquela Revolução e que também está enterrado no mausoléu dos soldados de 32, no Parque do Ibirapuera, merecia presidir aquela afirmação da grandiosidade de São Paulo.
Inté.
Vitrine (comentário do leitor sobre a coluna anterior)
Mario, parabéns pela coluna. Abraço, Filippelli (José Roberto), publicitário, Araras, RJ.
Mario querido,
É uma dádiva ser seu amigo e poder merecer esta sua coluna sempre que ela sai. Você exala graça, humor, talento, informação, formação, conteúdo, fluência, ritmo, harmonia, história, fatos, enfim, um montão de qualidades e coisas num texto que o torna universal. Minha fidelidade se torna total porque você preenche todas as minhas carências literárias. Um beijo. Isnard (Vieira), jornalista, publicitário, Rio.
Jovem Mario, … o que sabes sobre Carlota Macedo Soares …(?), Moises Andrade, arquiteto, Olinda/Recife.
Caríssimo Moisés, não sei o que sabes sobre Maria Carlota Costalat de Macedo Soares – a Lota –, mas vou responder com o pouco que sei, pois, de qualquer maneira, pode servir para outros leitores, principalmente os cariocas que transitam ou usam o Parque do Flamengo, comparável em grandeza (1,2 km²) ao Hyde Park londrino, ao Bois de Boulogne parisiense ou ao Ibirapuera paulistano.
Lota (1910 – 1967), como era tratada e ficou conhecida, paisagista e urbanista brasileira, contemporânea, colega e amiga de importantes artistas plásticos brasileiros, já era amiga pessoal de Carlos Lacerda quando este, em 1960, assumiu o governo do município do Rio de Janeiro, então Estado da Guanabara.
Lota pediu, ou Lacerda a convidou para uma assessoria como paisagista e/ou urbanista, como ela já era conhecida.
Lota pediu, ou Lacerda sugeriu, que fosse dado um tratamento ao maior aterro urbano do mundo, feito com a terra retirada do Morro de Santo Antonio, a partir de 1950. Lota foi integrada aos quadros de Lacerda e, por ser bastante rica, sem remuneração.
Lota administrou o projeto urbanístico e o traçado viário solicitado ao arquiteto Eduardo Afonso Reidy, tendo sido aprovada também a ideia de Lota de criar um parque paralelo às pistas de tráfego.
O Parque do Flamengo tem início no local antes ocupado por um restaurante popular de estudantes, conhecido como Calabouço e que depois foi ocupado pelo Museu de Arte Moderna – e termina defronte à Praia de Botafogo.
Todos os muitos equipamentos do Parque também são de Reidy, e o projeto de paisagismo foi entregue a Roberto Burle Marx, que já havia se incumbido do paisagismo do Parque Ibirapuera, em São Paulo.
O Parque foi tombado em 1965 e qualquer modificação ou acréscimo no seu conjunto tem que ser aprovado pelo IPHAN (no momento, a pedido de empresa privada, Niemeyer trabalha num projeto de um teatro no Parque a ser encaminhado para aprovação do instituto do patrimônio).
Lota entregou-se de corpo e espírito à execução do Parque do Flamengo, enfrentando a má vontade e os empecilhos burocráticos ao seu trabalho por parte de funcionários públicos ligados ao projeto de 7 km de extensão e 1.500 metros de praias artificiais.
Os aborrecimentos e a verdadeira luta da obstinada Lota abalaram sua relação íntima com a poeta norte-americana Elizabeth Bishop, uma relação que desde 1951 durava 15 anos sob o mesmo teto. Tudo indica que essas dificuldades e a separação com Elizabeth foram o motivo do suicídio de Lota em Nova York, em 1966.
Lamenta-se, hoje, que o Parque do Flamengo, oficialmente Parque Brigadeiro Eduardo Gomes, não seja publicamente conhecido como um gigantesco trabalho de Lota.
Por tudo que se sabe até os dias de hoje, quando presidente e oito ministros são do sexo feminino, pode parecer estranho que esse anonimato seja por causa de um preconceito antigo e muito forte naqueles anos 50 do século passado: Lota era mulher.
Para quem possa achar que essa hipótese seja exagero deste notório feminista, lembro que a advogada paulista Esther Figueiredo Ferraz foi a primeira mulher a exercer o cargo de ministra no Brasil, o da Educação. Isso somente em agosto de 1982 e até março de 1985.
