1. O ataúde da sogra — A velhinha não queria dar trabalho. Todo mês, economizava uns centavos. Até que um dia tinha todo o dinheiro. Exigente, não queria um ataúde qualquer, feito pelo carpinteiro local, mas forrado de cetim roxo. Queria um caixão que nem o do bispo.
A filha argumentou: não tinham onde guardar o ataúde. A velhinha firme: ora, embaixo da cama. A filha, sentimental: a senhora vai durar muitos anos ainda. A velhinha nem te ligo.
O genro perguntou por que não botava o dinheiro na poupança. Quando fosse a hora, eles comprariam o ataúde. A velhinha não confiava na poupança. Talvez não confiasse no genro. Morta, correria o risco de ser enterrada num caixão de pinho forrado de estopa, se é que seria forrado.
Lá se foi o genro no caminhãozinho para a cidade grande mais próxima. A velhinha fez questão de ir junto, não é todo dia que se compra um ataúde. A filha acabou indo também, iam passar por um shopping de fábricas.
Na volta, todos contentes com o ataúde na carroceria.
Um homem pediu carona. O genro não ia parar. A sogra insistiu, coitado do rapaz. Suspirando, o genro parou. Como a cabine estava lotada, mandou o homem subir na carroceria. Seguiram viagem.
A manhã tinha começado bonita. Mas, de uma hora para outra, deu pra chuviscar. O homem na carroceria aguentou um tempo. Depois preferiu se deitar dentro do caixão. Como estava quente, macio, silencioso, acabou tirando um cochilo.
Mais adiante, outro homem pedindo carona. Antes que a sogra insistisse, o genro parou e mandou o homem subir na carroceria. Seguiram viagem.
Três, quatro quilômetros depois, o homem no ataúde acordou e resolveu dar uma espiada. Afastou a tampa e se sentou. Ainda conseguiu ver o outro carona saltando direto para a estrada.
O chuvisco tinha parado.
2. Coisas do sul — Menino de cinco anos aprendeu na escolinha várias coisas sobre os costumes e a linguagem dos gaúchos. Num sábado, o pai o levou ao Parque Harmonia pra ver o acampamento das comemorações farroupilhas. Então veio um cachorro correndo na direção deles. O menino exclamou:
— Pai, pai, um cusco!
Quando o bicho chegou mais perto, o menino se decepcionou:
— Ah, é só um cachorro!
3. Mulher de médico — Cidade do interior. Quatro da madrugada. Toca o telefone. O médico senta na cama, atende, diz com desânimo para a mulher:
— Uma emergência.
Ela sente peninha, olha para ele na luz do abajur. Com um suspiro, ele bota as calças, a camisa sobre a camiseta, o blusão, o casaco. Ela imagina o frio na rua e se aconchega nas cobertas.
Duas horas depois, ela acorda, mesmo com o marido fazendo o mínimo de barulho. Não precisa mais do abajur. Há uma penumbra cinzenta no quarto.
O marido já tirou a casaco, o blusão, as calças. Quando tira a camisa, ela nota que ele está sem a camiseta.
Começa outra emergência.
4. Fatos da vida — Tardezinha, eu de um lado do muro, meu vizinho do outro. Nós dois aí pelos doze anos. O apelido dele era Fu-Man-Chu, ou Chu para os íntimos. É que ele tinha um olhar estranho, como se sempre olhasse pra baixo, a que chamávamos olhar de veneziana.
A mãe do Chu fazia alguma coisa perto da porta dos fundos da casa. De repente se virou e entrou. Mas, nesse movimento, vimos cair um jorro amarelo no chão.
O Chu, com grande calma, disse:
— É triste quando as mulheres têm as urinas frouxas…
A noite continuou caindo em silêncio.

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