A frase “Grenal é Grenal” foi imortalizada por Ildo Meneghetti, que foi governador do estado do Rio Grande do Sul (nas décadas de 1950 e 60) e também presidente do Internacional (nas décadas de 1920 e 30). Como se sabe, ele quis – e conseguiu – sintetizar o que ocorre no mais tradicional clássico do futebol gaúcho: em Grêmio x Internacional, tudo. Tudo pode acontecer, o favorito pode perder, o craque pode jogar mal e o jogador ruim pode se imortalizar.
Incluo o não na frase de Ildo Meneghetti para voltar o olhar para a recente eliminação de Porto Alegre como sede da Copa das Confederações 2013. Foi ruim, sem dúvida. O secretário extraordinário da Copa 2014 de Porto Alegre esperava que, caso sediássemos a Copa das Confederações na cidade, recebêssemos um movimento de 60 mil uruguaios. A Câmara de Dirigentes Lojistas calculou um prejuízo de R$ 30 milhões pela eliminação. E ainda ver uma cidade que tem dois clubes campeões mundiais ficar de fora deste torneio.
Então, claro que é ruim. Porém, a partir da divulgação da notícia, iniciou um Grenal. Dirigentes gremistas acharam oportuno fazerem troça do tradicional adversário. Os dirigentes colorados se defendem, reunindo seus argumentos. Porém, não é fato isolado. Historicamente (e em especial na última década), o Grenal saiu dos 110 m x 60m de grama onde tradicionalmente é disputado e foi para as instâncias superiores. Presidentes, vice-presidentes e diretores tanto de Grêmio quanto de Internacional valem-se de um momento de fraqueza de seu adversário para voltar o arsenal na direção do estádio do rival e bombardear. Esquecem-se, porém, de que os dirigentes devem manter – por estratégia e por inteligência – uma postura superior ao torcedor da arquibancada. Porque se é verdade que tanto Grêmio quanto Internacional devem um a grandeza ao outro (como disse o dirigente gremista Rudy Armin Petry, há muitos anos), também é verdade que fora dos gramados o caminho da união é totalmente indispensável. Juntos, têm uma força incalculável. Separados, são um prato cheio para adversários. A desunião da dupla Grenal os fragiliza e torna vulneráveis.
Tive oportunidade de constatar, quando estive em ambos clubes (Grêmio e Internacional), que é totalmente viável e muito mais inteligente trabalhar em parceria. Fiz palestras representando um dos clubes, em conjunto com o dirigente da outra parte. Totalmente tranquilas. Mesmo com eventuais brincadeiras ou flauta, o objetivo era único: unir as duas grandes forças futebolísticas do Rio Grande do Sul para, juntas, gerarem uma força maior do que as duas têm individualmente, se somadas.
E quando eu disse que Grenal não é Grenal, no início da coluna, me referia ao restante do ambiente do Rio Grande do Sul. Esta dualidade histórica (chimangos x maragatos, etc) é o combustível do atraso. Tanto assim que se fez a conhecida piada de como se conhece um balde de caranguejos, se colocarem lado a lado. O balde do Rio Grande do Sul é o único sem tampa, pois quando um caranguejo consegue subir, o outro o puxa para baixo. Os demais baldes, de outros estados, devem ficar tampados, pois os caranguejos se ajudam. A mentalidade Grenal impregnou a nossa gente de tal forma que em nosso Estado é proibido prosperar, progredir. Se tivermos sucesso, vem chumbo do vizinho. Não sei se existe o termo, mas esta é uma situação “inaguentável”. Não há mais espaço, em pleno século XXI, para uma mentalidade grenalista que não se atenha unicamente às quatro linhas do gramado. Então, Grenal é Grenal para aquele disputado no campo. Fora dele, precisamos com urgência consagrar a máxima contrária à do ex-governador Ildo Meneghetti: Grenal NÃO É Grenal!
Meu comentarista convidado desta semana é o jornalista Marcelo Villas Boas, grande especialista em política e veterano (apesar da pouca idade) na vida pública. Ao Marcelo, meu muito obrigado!
O que ele pensa:
“De certa forma, o Flávio aponta, também no esporte, o caminho recém descoberto na política – que a unidade das forças antagônicas, por vezes, pode resultar em objetivos comuns que transcendem o das divergências históricas entre clubes, partidos, segmentos de opinião, etc. É verdade que os gaúchos, por décadas, preferiram manter sua olímpica postura de que o Rio Grande não se entrega, de que esta terra tem dono, mesmo que vissem suas mais urgentes reivindicações perecerem frente aos blocos monolíticos formados pelos Estados do Norte ou Nordeste do Brasil. O Governador Tarso Genro, nem bem terminada a apuração das últimas eleições, apontou para a formação de um governo reunindo a ampla maioria das forças políticas do Estado, o que diferente da hegemonia política, e com isso já vem conseguindo resultados expressivos em sua administração. Bem recentemente, o prefeito José Fortunati produziu, unindo a presidência da República, o governo do Estado e todos os partidos, uma expectativa histórica do Estado e uma expressiva fatia de R$ 1 bilhão para o sonhado metrô da Capital. O espírito de Gre-Nal ainda vai perdurar por décadas no esporte e na política, mas ao menos, em momentos decisivas, nossas lideranças precisam perceber essa diferença. Há que ter pragmatismo e apontar o caminho do bom senso. E que se deixem os passionalismos para os gramados ou para os dias de eleição.”
Marcelo Villas-Bôas é jornalista há 35 anos, especializado em política. Foi repórter e editor nos principais jornais do Estado e em alguns do País, passando por assessoria de imprensa na Assembléia Legislativa, onde foi o primeiro Superintendente de Comunicação Social. Atualmente, é o chefe da Assessoria de Comunicação da Secretaria da Economia Solidária e Apoio à Micro e Pequena Empresa.

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