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Matando a pau

O crescimento do interesse pelas lutas (como UFC) e pelos esportes chamados radicais, como o MotoCross e modalidades semelhantes carrega em si uma realidade …

O crescimento do interesse pelas lutas (como UFC) e pelos esportes chamados radicais, como o MotoCross e modalidades semelhantes carrega em si uma realidade da vida moderna: a necessidade de o ser humano extravasar seus instintos mais primitivos. Não é porque vivemos em um mundo mais tecnológico (com a utilização de computadores, tablets, telefones celulares, tocadores de mp3, redes sociais e internet) que as nossas necessidades mais primitivas adormeceram.

Utilizar tecnologia nos aproxima de uma evolução do ser humano, sem dúvida. Foram necessários quase dois mil anos para que chegássemos ao computador com capacidade de processamento realmente relevante. Para atingirmos este patamar, muita pesquisa(e consequentemente evolução) foi necessária. Então, de tanto lidarmos com estes equipamentos, parece que evoluímos junto. Sim. E não.

Uma boa parte dos esportes ainda traz em si conceitos bastante antigos: o próprio futebol sempre remete a uma batalha entre gladiadores; uma cortada no vôlei é a violência trabalhada de forma civilizada. Entretanto, esportes que sejam de fato mais violentos ou mais ligados à natureza e ao desafio de limites estão bombando.

E por que uma modalidade como o UFC está ganhando tanto e cada vez mais espaço? Porque a vida “civilizada” e cada vez mais enclausurada nos impõe limites. Mas aquele desejo que muitas vezes nos acomete, de termos um dia de fúria está lá, no fundo do nosso ser. Como não podemos ter dias de fúria, realizamos este impulso através dos gladiadores no octágono. Este desejo sempre existiu, desde a arena romana. Porém, estamos cada vez mais espacial e psicologicamente enclausurados. Reprimidos. Mas repressão um dia estoura e se manifesta. Só que vivemos na era do mercado e os veículos de comunicação notaram este fenômeno e estão travando uma (outra) luta pelos direitos de transmissão.

Na minha infância, fazíamos invasões. O conceito de invasão pressupõe uma atitude arbitrária. E era, éramos crianças invadindo eventualmente quintais de casas vizinhas. Porém, havia uma tolerância por parte dos proprietários destas casas. Eles sabiam que iríamos invadir. E toleravam. Alguns reclamavam, mas a maioria gostava daquela movimentação de vida em torno de si. Infelizmente, isto acabou. Hoje, vejo meu filho entrar somente em lugares onde é convidado, onde há permissão. E onde ficou o desejo do ser humano de ir ao não permitido? Ao arriscado? Ele migrou para as telas dos jogos eletrônicos e para os esportes radicais. Seja quando vemos um piloto de motocicleta dando grandes saltos em rampas, arriscando sua vida, seja voando em paraglider ou asa delta, seja quando vemos lutadores trocando socos e pontapés numa arena. O nosso lado mais atávico sempre volta.

Autor

Flavio Paiva

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