Atrasado como sempre, meto o bedelho na calcinha da Gisele Bündchen. Não entendi o bafafá. A propaganda não é mais escrota nem mais idiota do que a média das propagandas que vemos na tevê. Conheço alguns publicitários e vários, culpados por incensar porcarias, se defendem dizendo que a bolação de um anúncio é um negócio prazeroso, porque lida com a criatividade. Concordo com a primeira parte, a bolação de qualquer coisa dá prazer, não importa o resultado. Quanto à segunda, concordo também, em teoria. Mas meia hora de tevê me escangalha o dia. Criatividade? Há é uma repetição insana dos mesmos macetes, lugares-comuns e tiques. Pra cada anúncio astuto e divertido, nem falo em convincente, há uma enxurrada de idiotices chapadas. Claro, claro, isso acontece em todas as profissões, não é uma maldição da publicidade. Mas um pouco menos de pose de artista na categoria não faria mal a ninguém.
Anúncios irritantes
Deve ser coisa minha, mas acho uma porção de anúncios simplesmente irritantes. Se eu fosse do tipo consumidor, deixaria de comprar muitas coisas só por causa do anúncio. Essas séries, por exemplo, sobre a tevê a cabo, mundo dos net e não sei que mais, são o suprassumo da encheção de saco. Fico imaginando se alguns publicitários, consciente ou inconscientemente, não tentam boicotar as campanhas que fazem, em busca de um pouco de paz. Mas como esses anúncios estão entre os mais premiados, meu palpite deve ter saído pela linha de fundo.
Harry Potter
Tenho visto muita gente dizendo que os livros do Harry Potter não incentivam a leitura pô nenhuma. Que os leitores dele serão os futuros leitores do Paulo Coelho, Lya Luft, ou alguma coisa mais baixa ainda. É gozado isso. Essas pessoas não se lembram do que leram na infância e na adolescência. Pela conversa delas pensamos que começaram, aí pelos cinco ou seis anos, lendo Sófocles e Shakespeare no original, com uns dois ou três ensaios de contrapeso. Apesar da pose de bodoso, nem o Harold Bloom começou lendo Shakespeare. Aliás, se tivesse se divertido com livros adequados à sua idade, não seria o bestalhão que é hoje.
Pedofilia e literatura
Igreja russa acusa os romances “Lolita”, do Vladimir Nabokov, e “Cem anos de solidão”, do Gabriel García Márquez, de incentivar a pedofilia. Acha que a literatura deve ser julgada primeiro do ponto de vista moral. Pronto, podem começar a queimar todas as bibliotecas. Como notou um jornalista russo, vai sobrar pouco desde Homero. Pela régua da igreja essa, nem a Bíblia deve escapar — me lembro de montes de histórias escabrosas, com pai matando filho, irmão matando irmão e incesto comendo frouxo.
Como todos os bons escritores, Nabokov e Márquez lidam de perto com as paixões dos homens, muitas vezes obscuras ou mesmo monstruosas, como qualquer primeiranista de psicologia sabe, menos os religiosos russos e outros acéfalos de plantão. Às vezes, como no caso do Nabokov, o ponto de vista é mais complexo que a média: examina a versão do criminoso.
O problema de muitos sujeitos politicamente corretos é que têm uma visão simples demais da realidade, pra não dizer tosca. Mas se um escritor for tão asséptico como eles desejam, não teremos literatura, apenas cartilhas, catecismos e livros de etiqueta.
O incentivo à pedofilia
É muito mais evidente em certos programas de tevê e anúncios de roupas infantis. Por exemplo, esses dias, nos Estados Unidos, os filmes da Xuxa foram classificados como pornografia soft. Mais: disseram que os programas dela fizeram muito sucesso com os adultos. É verdade, ou as paquitas são ou não são o sonho de todo pedófilo?

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