1. Manchete: “Escolha a frase mais polêmica de Maluf”. Desde quando a palavra polêmica significa descaramento, cinismo, insolência?
2. Manchete: “Menina de 4 anos usa peitos e bunda postiças (sic) para imitar Dolly Parton”. Notícia publicada como curiosidade bizarra. Nem os pais da menina, nem a tevê que passa o concurso, nem os patrocinadores do concurso respondem a processo. O abuso infantil tem muitas faces, além de muitos peitos e bundas.
3. Manchete: “A Fazenda. Monique chora e diz que está sentindo falta do carinho de Dinei”. Comovente. Quase chorei também.
4. Manchete: “Babi Rossi se revolta com declaração de Dani Bolina sobre panicats serem garotas de programa”. A relevância disso só é amenizada com uma das frases da resposta da tal Babi Rossi: “Meu trabalho é digno, trabalho pra caralho para conquistar meus objetivos”. Certo, eu sou muito inexperiente, mas o negócio das garotas de programa não é justamente trabalhar pra caralho?
5. Manchete: “A Fazenda. ‘Jamais vou esconder meu passado’, diz Surfistinha”. Revelador, vindo de alguém que vive desse passado.
6. Manchete: “Veja os animais que foram destaque na semana”. Não bastava o resto, agora somos tentados com as gracinhas do macaco no zoo.
Sarna braba
Milhões de pessoas, mesmo que tenham lido apenas um ou dois livros, pensam escrever um livro. Não sei se a literatura é tão contagiosa assim. Não sei se esse negócio de escrever livro não tem que ver com outras e escabrosas mumunhas, que será melhor deixarmos pros psicanalistas. Mas sei que é bom. Por pior que seja o livro, faz bem pra pessoa, faz com que pense um pouquinho melhor, ou pelo menos se divirta e sonhe um pouco. O problema é que esses milhões também querem publicar seus livros. Talvez até a maioria só tenha escrito pra poder publicar. Ao menos conheci pessoas que não leram o próprio livro. Sabe, escrever foi um esforço tão extenuante que acharam melhor nem revisar, ou se sentiram tão geniais, que deram por encerrada a aventura. Querer publicar toda linha que se escreve é uma sarna, uma sarna braba, tanto que atinge até os mortos, se acreditamos piamente na origem dos livros psicografados.
Mais um boçal
O inglês Martin Amis disse que “depois de algumas horas diante de suas escrivaninhas, no dia 12 de setembro de 2001, todos os escritores do mundo estavam considerando relutantemente mudar de profissão”. A troco? Quando os gringos explodiram Hiroxima e Nagasaki, escritor nenhum deixou de escrever. Nem deixaram de escrever em dezenas e dezenas de vezes diante de outras atrocidades. Os escritores não vêm fazendo outra coisa desde que o mundo é mundo.
Não sei como um cara capaz de dizer uma idiotice dessas, cheio de suficiência, é levado em consideração em tantos países, por tantos críticos. O Ivan Lessa, mais de uma vez, tem gozado o Amis na BBC e afirmado que bom escritor era o pai dele. Não li nenhum, nem tenho curiosidade. Do filho tentei um conto justamente sobre um dos terroristas que explodiu uma das torres gêmeas. Parei logo, morto de tédio diante de um texto tipo sopa de serragem, sem falar na análise do terrorismo, quase tão rasteira como a do Bush.
Sei que houve, em todas as épocas, medíocres e boçais tentando faturar, mas hoje em dia a coisa piorou: há muitos milhões a mais de gente e os meios de comunicação se multiplicaram. Me disseram que as informações que temos, por exemplo, num exemplar da Folha de São Paulo de domingo, é maior que as informações que uma pessoa culta tinha a vida toda em torno de 1700. Agora, se você aplicar uma boa peneira, deixando passar besteiras como essa do Amis e outras banalidades na moda, o que sobra de realmente importante? A gente gasta mais tempo lutando contra a desinformação do que em busca de informação. E não custa lembrar que nem Cervantes nem Shakespeare precisaram ler jornal algum pra escrever o que escreveram.

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