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Revolução Farroupilha

Ou Guerra dos Farrapos, episódio que como se sabe opôs o Rio Grande do Sul ao Império e que durou de 20 de setembro …

Ou Guerra dos Farrapos, episódio que como se sabe opôs o Rio Grande do Sul ao Império e que durou de 20 de setembro de 1835 a 1º de março de 1845. Apesar do final não ter sido o esperado, ficou ressaltada a coragem dos gaúchos. E é esta coragem que inspira o hino Riograndense e a própria comemoração da Revolução Farroupilha todos os anos, no 20 de setembro.

Certo, mas o que tem a ver com futebol? Tudo. Porque foi esta coragem que fez com que os clubes daqui (Grêmio e Internacional) conquistassem títulos mundiais, continentais e nacionais. Disposição para o desafio e bravura. E os nossos clubes necessitarão de superação diante do novo cenário do futebol brasileiro que se avizinha. Com a nova negociação empreendida (está certo, foram eles mesmos que empreenderam a negociação com a TV Globo), haverá – como eu mencionei anteriormente nesta coluna – necessidade desta têmpera do gaúcho de superação. Há, a partir do ano que vem, um total desordenamento financeiro por parte das cotas de televisão. Os principais clubes de SP e RJ receberão o dobro do que a dupla Gre-Nal. Somente com destemor e disposição para enfrentar desafios será possível transpor este cenário. Naturalmente, times que recebam maior injeção de recursos tendem a formar times melhores e, portanto, que conquistem mais títulos. Basta olhar para a tabela de classificação do campeonato brasileiro hoje. Têm as primeiras colocações os times do Rio e de São Paulo. Isto que ainda não estão recebendo as novas cotas de televisionamento, quando aumentará esta disparidade.

Me dirão que tanto o Internacional quanto o Grêmio gerarão um faturamento interessante através de sua base de sócios. O Inter, com mais de 100 mil; o Grêmio, tendo por objetivo atingir os 80 mil no final do ano. Certo. Mas apenas a receita direta gerada pelos sócios não será suficiente para bancar novas contratações, sejam de jogadores ou comissão técnica. E também é sabido que o sócio é altamente passional (característica do torcedor de futebol, em especial do brasileiro e mais ainda do gaúcho). Desta forma, basta o clube começar a tropeçar e a arrecadação cai rapidamente, com aumento expressivo da inadimplência.

Foi a bravura que dirigiu no passado muitas atitudes dos gaúchos. Nossas façanhas podem ter servido de modelo a toda a Terra, como canta o hino. Mas não mais. Não vamos nos enganar. Nossa participação no PIB nacional caiu de aproximadamente 13% (década de 80) para 6,7% nos dias de hoje. Apesar de os clubes viverem de suas conquistas, eles só podem manter a grandeza obtendo novas vitórias. O passado é importantíssimo para evitar equívocos, servir de inspiração e motivação e apontar caminhos. Mas como diz o dito popular, quem vive de passado é museu. No caso do futebol então, isto é ainda mais emblemático. O futebol se renova e modifica jogo a jogo. Os torcedores que apoiavam o time, o técnico e os dirigentes até um determinado jogo podem deixar de fazê-lo no jogo seguinte (dependendo das circunstâncias da partida). Eu vi isto como torcedor e em minha atuação dentro dos clubes. A veia passional do torcedor vale para o bom. E para o ruim.

Além da bravura e disposição para a luta, precisamos ainda de competência. Competência de nossos dirigentes (que devem servir como ícones, indicando os melhores caminhos), bem como de todas as áreas técnicas do clube, sejam o técnico, o preparador físico, os diretores executivos (futebol, marketing, jurídico, planejamento, financeiro). Os tempos são outros e as demandas também. Façanhas são fonte de inspiração, mas há um cenário muito mais duro, profissional e competitivo, que não poderá ser enfrentado por um exército farrapo. O tamanho e o poder do Império são outros, as forças são outras, o tabuleiro e o jogo são outros. Mas, como antes, devemos ir à luta.

Comentarista convidado

Meu convidado especial desta semana é o grande Eduardo Peninha Bueno, jornalista e escritor, conhecido por sua forte vinculação ao futebol e defesa de um time com 10 volantes. Ao Peninha, meu muito obrigado!

“É para falar sério ou rir para não chorar?

Bom, se for para falar sério, eu diria que se o Rio Grande tivesse vencido a revolução que perdeu, finge que empatou e festeja como se tivesse ganho, então os problemas mencionados na coluna de Paiva estariam todos resolvidos: teríamos um espetacular campeonato nacional, o Campeonato da República Rigrandense, com três times da Capital (Grêmio, Cruzeiro e São José) e várias potências do interior da nação (Brasil, Caxias, Juventude, o grande Gaúcho de Passo Fundo). Não que fosse fácil, mas acho que o Grêmio já ostentaria a faixa de duodecacampeão. E com certeza, a essa altura, já seria também hexacampeão da Libertadores (títulos conquistados antes de 2005, pois, sabemos todos, desde a primeira e patética final caseira desse torneio, realizada entre dois brasileiros, essa competição simplesmente acabou e não significa mais nada).  De todo modo, seria uma maravilha acompanhar o Futebol Farroupilha (assim, com maiúscula), sempre pronto para manter acesa a chama da rivalidade nos jogos contra nossos ardorosos irmãos platinos e, em especial, nos embates contra os desprezíveis vizinhos a norte do Mampituba.

Agora, se for para fazer piada, seria bom levar em consideração que o Rio Grande sempre foi incompetente ou omisso na hora de realmente defender os próprios interesses; que vive há mais de cinco décadas numa decadência econômica de dar dó; que tem sido pródigo em produzir uma geração de políticos incapazes ou coisa pior (nisso, aliás, não diferindo em nada do resto do país) e que seus clubes de futebol ainda conservam os piores vernizes do amadorismo e estão longe de virar empresa, sendo dirigidos por uma gente estranha, muito estranha – que diz “não ganhar nada” para executar suas funções -, e que, dentre outras coisas, ao invés de lutar pela preservação de uma entidade supostamente autônoma, sediada em Porto Alegre e com um presidente gaúcho (o Clube dos 13), preferiu alinhar-se correndo com a TV Globo e, por tabela, com sua associada, a CBF (embora, na minha opinião, a Globo, com todos seus eventuais senões, pelo menos é competente e não constitui uma quadrilha). Assim sendo, temos o que merecemos: as molduras de um quadro periférico.

Mas, como alertei, esse segundo parágrafo é só piada. A parte séria está lá em cima, na abertura. Até porque, desde 2005, a Libertadores acabou mesmo…

Autor

Flavio Paiva

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