Colunas

A vida dura do viciado

Se fico um dia sem ler uma boa página, vai me dando um nervoso, um nervoso. Como todo viciado antigo, passo o diabo pra …

Se fico um dia sem ler uma boa página, vai me dando um nervoso, um nervoso. Como todo viciado antigo, passo o diabo pra manter meu vício. Quero drogas mais puras, mais fortes, em doses cada vez maiores. Se não, não dá barato. Como drogas mais puras e mais fortes não aparecem a toda hora e, pior, muito pior, algumas drogas antigas perdem seu efeito na hora que mais precisamos delas, tem dias que ando arrancando os cabelos. Agora vocês não notam nada porque escrevo no computador. Fosse no tempo da bic vocês iam ver o tremor das minhas mãos.

Jovens e velhos escritores

Sempre que posso, confiro o trabalho de jovens escritores, na esperança de ser salvo dos velhos. Reler é muito bom, mas, quando a gente começa a decorar os textos ou a pular de um pra outro com uma inapetência de doente do fígado, a coisa complica. O diabo é que não me sinto bonzinho com os jovens. Se um sujeito publicou, não me interessa se tem dezessete anos ou quarenta — vou julgá-lo pelos meus padrões: deu barato? Desconto se dá no comércio. Com literatura o buraco é mais embaixo. Pra piorar, com essa moda de blogs, com autores que mal sabem assinar o nome e que ficam o tempo todo admirando o umbigo como um cachorro lambendo o tico, sinto um desânimo, cansaço e irritação que não tem fortificante que contorne. Aí, como não sou bonzinho, preciso me segurar pra não ser malvado.

Resenhas agressivas

Confesso, escrevi resenhas extremamente agressivas e não posso jurar que não vou escrever outras. Como atenuante, só posso dizer uma coisa: eu sempre argumento.

Mediocridade

Só a mediocridade não me tira do sério. Mas a mediocridade acompanhada de arrogância me comicha o dedo no gatilho, como dizia Wild Bill Hickok.

Admitir o erro

Já houve, claro, quem me provasse que eu estava errado várias vezes. Daí descobri um negócio interessante: saber que não se tinha razão, pensar nisso e mudar de opinião não dói, não — ao contrário, dá uma cocegazinha legal.

Da inveja

Esses dias o Fraga me falava de um poeta nosso conhecido, praticamente o número um entre hordas de medíocres, que é extremamente simpático e que não tem inveja de ninguém. O segredo é simples: ele se acha o máximo.

Ainda a inveja

Eu tenho milhares de motivos pra invejar dezenas de pessoas. Na literatura, por exemplo. Borges: pela inteligência, humor e cultura. Cortázar: pela fluência e senso lúdico. Stendhal: pela clareza e o poder de fascinar sem apelar pra truques. Dostoievski e Svevo: pelo poder de criar personagens extremamente ambíguos. P. K. Dick: pela imaginação. Isso é só uma amostra.

Sim, tenho motivos, mas não invejo. Deve ser problema de alguma glândula. Falo sério. Acho que muitas vezes a virtude está subordinada à biologia.

A inveja não me parece nada prática e faz mal, tipo digerir um mocotó de anteontem. A admiração reverente também não serve pra muita coisa. Melhor é o canibalismo, como já sabiam os tupinambás: devorar os guerreiros fortes e valentes pra adquirirmos a força e a valentia deles. Não funciona cem por cento, mas é melhor que morder os próprios dentes pelos cantos.

Autor

Ernani Ssó

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.