Há muitos anos, dizia-se que fulano estava “bem no Ibope”, que era quando alguém estava prestigiado. Como surgiram outros institutos que realizam medições como o Ibope, a expressão deixou de ser utilizada. Porém, para medir audiência de futebol, ainda é o principal indicador. E fazendo aquela ligação “Direto do Túnel do Tempo”, posso dizer que o Ibope da seleção brasileira de futebol anda em baixa.
Na última partida (Brasil x Gana), o nosso escrete conseguiu amealhar 17 pontos no Ibope*, índice baixo para a seleção mais multicampeã do planeta. Está certo, era uma seleção sem tanta tradição(Gana), mas ainda assim é um indicador baixo. Na partida com a Alemanha, nossa seleção obteve 20 pontos de audiência. Ambos jogos foram realizados na tarde de um dia de semana e há que se considerar que o jogo contra a Alemanha foi realizado em uma quarta-feira, dia tradicional de transmissões futebolísticas na TV Globo.
Porém, entendo que o furo é bem mais embaixo. Entendo que há um desinteresse crescente por parte dos telespectadores, em função de dois aspectos fundamentalmente:
1) Um excesso de transmissões de futebol na TV
2) Um excesso de amistosos da seleção brasileira contra seleções de pouca ou nenhuma relevância no cenário futebolístico mundial. Além de serem muitos os amistosos disputados, também o são contra seleções sem tradição e, por conseqüência, sem apelo junto ao público.
Além destes dois fatores há ainda um outro ponto importantíssimo: a relação dos jogadores que são convocados com a seleção brasileira. Houve uma mudança radical nos últimos anos na relação dos atletas com os clubes. Eles (atletas) estão visando maximizar seus contratos, atuando de forma profissional, podendo jogar no Clube A em determinado momento e em seguida no Clube B, mesmo que sejam rivais. O antigo amor à camiseta não existe mais, foi substituído por uma mentalidade mercadológica. Até aí, dá para entender (embora eu ache que alguns jogadores exageram nesta mentalidade mercadológica, não criando nenhuma identidade com o clube onde atuam e, aparecendo uma proposta, deixam o clube em meio a competições importantes). A carreira de jogador é curta e eles são os atores principais da grande indústria em que se tornaram as competições de futebol.
O que não dá para entender é que mantenham a mesma relação com a seleção brasileira. E – lamento muito afirmar isto – está claro que a grande maioria dos jogadores pensa e age desta forma. A seleção se tornou tão importante quanto o clube onde jogam.
Sei que é difícil falar em patriotismo e que os jogadores têm que agir por si, mas um mínimo de identidade com o país onde nasceram e, principalmente, consideração aos milhões de torcedores que teimam em vibrar com o verde e com o amarelo seria de muito bom tom. Soaria como respeito e como profissionalismo da parte destes atletas. Ficaria bonito, como se diz. Então, a mensagem é que (já que estou nostálgico) cautela, caldo de galinha e- acrescento – calma neste trato mercadológico dos jogadores para com a seleção brasileira nunca fizeram mal a ninguém. Vamos devagar, gente.
Porque não era muito mais emocionante quando os jogadores se sentiam honrados (e este é o termo adequado) e comprometidos quando vestiam a camiseta da seleção brasileira? Quando ela era realmente um manto sagrado? Quando sabiam que estavam representando a alegria (ou tristeza) de milhões de pessoas? Pois eu recordo vivamente aquela seleção fantástica de 1982, que contava com um time de grandes craques. Dava para sentir que eram de fato “todos ligados na mesma emoção, tudo é um só coração”, os 11 jogadores que estavam em campo e os (então) 123 milhões de brasileiros. Isto gerava uma emoção genuína e aqueles jogadores jamais sairão da nossa memória, tanto pelo futebol que jogaram quanto pelo amor que demonstraram pela camiseta verde e amarela.
E o meu comentarista convidado desta semana é ninguém menos que o maior jogador daquela seleção: Paulo Roberto Falcão, o Rei de Roma, o Bola-Bola. Como falei em honra, me sinto honrado por poder contar com um depoimento de alguém de tamanha importância no cenário futebolístico mundial, que esteve dentro das quatro linhas (fazendo parte daquele timaço de 1982 e de outro grande time, que foi o Internacional de 75-76, além do Roma), foi treinador da seleção e do Internacional e é um comentarista com um olhar atento e uma grande bagagem. Assim, gostaria de agradecer ao filho da dona Azize por ter aberto esta possibilidade. Obrigado, Falcão!
Curiosidades:
Informações sobre a participação do Brasil na Copa do Mundo 1982, da Wikipédia: http://migre.me/5EuZG.
Números da população brasileira em 1982: http://migre.me/5Ev2c.
Gol de Falcão contra a Itália, na Copa de 1982. Narração original de Luciano do Valle, transmissão da TV Globo, restaurada pela ESPN http://migre.me/5Evnz.
* Cada ponto no Ibope representa 58.300 domicílios sintonizados na emissora. Os dados da medição consideram apenas a audiência de São Paulo, região de referência para o mercado publicitário.

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