Alberto Manguel, em artigo sobre Percival Everett, em “El País”: “Não é de estranhar que um dos mais audazes, originais e inteligentes escritores norte-americanos de nossa época não seja devidamente consagrado em seu próprio país: nos Estados Unidos, Percival Everett é quase um desconhecido. Os estragos causados pelos conglomerados editoriais e as vastas cadeias de livrarias, tentativas de transformar o livro num fugaz produto de consumo, impossibilitaram o reconhecimento de autênticos talentos literários e condenaram os leitores da pátria de Faulkner aos minúsculos méritos de um Jonathan Franzen ou às obscenidades de um Brett Easton Ellis. Oficinas literárias que reduzem o romance a supostas fórmulas mágicas, ‘editors’ que podam e maquilam os manuscritos conforme o gosto comercial do momento, distribuidores analfabetos que decidem quais livros merecem ser publicados e quais não, suplementos literários cada vez mais breves e burros fizeram com que a literatura norte-americana seja hoje a mais vendida e a mais traduzida no mundo inteiro, e também a menos interessante e a mais efêmera”.
O diabo, meus caros, é que nós estamos copiando direitinho esse esquema. Como se não bastasse o consumo de hambúrguer, refrigerante e as aventuras de Paris Hilton e Charlie Sheen.
Deu na BBC
A manchete: “Cérebro de homens e mulheres reage de forma distinta ao medo”. A primeira linha: “O cérebro feminino tem intensa atividade cerebral na iminência de experiências negativas, enquanto o dos homens mantém comportamento estável. A descoberta foi constatada por uma pesquisa do University College of London”. Eu gostaria de saber se o cérebro de homens e mulheres tem intensa atividade cardíaca ou intestinal na iminência de experiências de leituras redundantes.
Aula de português
Ivan Lessa, esses dias na BBC: “Mas não posso me esquecer de um velho professor, ‘seu’ Firmo Costa. No ano em que uma música de carnaval pegou adoidada (ou adoudada), ele gostava de nos dizer em sua aula de Português: ‘Tanto se me dá que a azêmula claudique, o que eu desejo é acicatá-la’. Traduzindo para o original da época, na voz de Jorge Veiga, O Caricaturista do Samba: ‘Que me importa que a mula manque, o que eu quero é rosetar’. Rosetou-se muito naquele ano. Deu, como sempre, até em título de espetáculo de teatro de revista”.
Descrição
Isabel Allende descreve um personagem como alto e de ossos longos. Seria mais engraçado se fosse um anão com ossos curtos.
Nomes
Uma delegada de Pernambuco, envolvida numa investigação sobre músicas com letras de duplo sentido, que estariam incentivando a pedofilia, se chama Kelly Luna. Juro que eu guardava esse nome para uma comédia, mas estava em dúvida se usaria com um transexual ou uma striper. Mas uma delegada ou uma detetive particular é muito melhor. Ou talvez uma senadora, ou mesmo uma presidente da república, quem sabe?
Linguagem jornalística
Uma juíza tem a frente do carro cortada por outro carro e duas motos, leva vinte e um tiros, e o jornalista escreve: juíza morta em suposto atentado. Mas já vi coisas piores. O pedófilo preso em flagrante, com testemunhas e laudo médico comprovando a coisa — e o jornalista falando da suposta vítima. Cautela? Cacoete? Às vezes é insulto.

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