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Miss simpatia americana

Vocês leram sobre a declaração de Maureen Chao, vice-cônsul dos Estados Unidos no estado indiano de Tamil Nadu? Ela disse às crianças numa escola …

Vocês leram sobre a declaração de Maureen Chao, vice-cônsul dos Estados Unidos no estado indiano de Tamil Nadu? Ela disse às crianças numa escola que, depois de ficar sem tomar banho por 72 horas, a pele dela tinha ficado “suja e escura como a de vocês”. Mais tarde os gringos pediram desculpas dizendo que Maureen Chao tinha sido inapropriada. Acham que isso basta.

Não vi nenhum americano, depois do ataque às torres gêmeas, dizendo: “Depois dessas explosões, nossas vítimas ficaram tão mortas e destripadas como as de vocês depois de nossos ataques”. Ou melhor, vi sim: Gore Vidal e Noan Chomsky. Naturalmente foram considerados inapropriados por outros compatriotas.

Incentivo à pedofilia

A publicidade e muitos programas infantis, sem falarmos dos pais, transformam menininhas em projetos de modelos que logo posarão pra Playboy. Isso é ou não é incentivo à pedofilia? Pressinto publicitários, diretores e pais com a desculpa na ponta da língua: “Fumei, mas não traguei”.

Falando em publicidade

Tenho visto muitas vezes a expressão “propaganda enganosa”. Vocês têm certeza que isso não é uma redundância?

Ainda as virgindades da Sandy

Não entendo esses bafafás cíclicos em torno da Sandy. Ela não é tão gostosa assim. Depois, é do tipo enjoadinha. Mas a imprensa não a larga. Primeiro promoveram uma espécie de leilão da virgindade da moça — a virgindade aquela abençoada por Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Agora que essa se foi sem deixar saudade, pelo que se deduz das manchetes, tentam rifar outra, bem menos abençoada, embora muito assediada nas sacristias, se contarmos com as indenizações milionárias que o Vaticano anda pagando. O próximo passo, imagino, será uma pulada de cerca. Mas o interessante nisso tudo é que, me garantem, a moça é cantora e compositora. Quer dizer então que a crítica musical hoje se resume a isso? Caraca, devo rever meus conceitos. Porque eu andava tiririca por ver os cadernos de cultura resenhando só livros de vampiros, de serial killers e demais escrotidões norte-americanas.

Sociedade do espetáculo

O pior da chamada sociedade do espetáculo é que falta justamente o espetáculo.

Algemas

Eu cresci durante a ditadura, quer dizer, quando me falam em excesso da polícia penso em tortura, violações e presos suicidados. Mas tenho visto que excesso da polícia, entre políticos e empresários, significa o uso de algemas em políticos e empresários corruptos. Há indignação pelas algemas, não há indignação pela corrupção, coisa bastante reveladora de nosso temperamento cordial por natureza, dizem.

Nos Estados Unidos há o que se chama “perp walk”, aquela caminhada de um acusado, quase sempre com algemas, para registro da mídia. Acusado, note-se. Mais tarde pode se comprovar que o sujeito é inocente. Excesso? Talvez. Mas todos passam por isso, desde o punguista ao banqueiro.

Na Espanha dos tempos do Cervantes, havia a caminhada da vergonha. O preso desfilava pelas ruas, montado num burro. Um escrivão ia atrás lendo a lista de seus crimes e um oficial o açoitava, muitas vezes. Excesso? Certamente. Os presos sempre eram pobres. Nunca um nobre fez a caminhada da vergonha.

O que me incomoda aqui na pátria amada é que esse fugaz momento em que o político e o empresário usam algemas seja toda a punição que sofrem, na maioria absoluta dos casos.

Autor

Ernani Ssó

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