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83 anos

Do baú da memória: o vejo pegando a bicicleta, guardada na sala, encostada na janela pra não arranhar o parque encerado e lustrado com …

Do baú da memória: o vejo pegando a bicicleta, guardada na sala, encostada na janela pra não arranhar o parque encerado e lustrado com as mãos por minha mãe, depois ele ajeitando a vianda enrolada em papel de embrulho e amarrada com barbante no bagageiro da bicicleta, prendendo a boca das calças com uma pulseira de aço pra não enrolar nos aros e, em seguida, me dar um beijo e descer a rua, rumo à fábrica de sapatos, sempre assobiando a mesma música, uma coisa difusa, sem lógica, mera manifestação de quem sabe alegria, quem sabe disfarce pela dureza da vida.

Depois, o vejo abanando a poeira dos cabelos, ao desligar a lixadeira, mais um pé de sapato na mão, o avental de lona verde-militar que minha mãe costurou cheio de manchas de tinta e cola, os dedos cortados e recortados pela faquinha afiada, a boca cheia de pregos que ia pegando um a um com maestria para fincar com marteladas certeiras, a mão enfiada num sapato branco que ficaria preto com a tinta Enigma pegando fogo e que ele manejava como um artista, no ar, a letra quase ilegível com o toco de lápis escrevendo o nome do freguês num pedaço de papel de pão que era colado na palmilha com grude que ele mesmo fazia. E eu, debruçada no balcão, vendo a vida na confluência de três ruas, pra mim, ó existiam para que a Sapataria Bandeira tivesse sido criada.

Um dia, o primeiro carro, aquele Studebaker de saia verde e gelo em cima, que nos deixou na rua, junto do Laçador, na noite do passeio de estréia, eu e ele de pijama, de mãos dadas, andando até o bonde pra voltar pra casa, rindo da vergonha, minha mãe ralhando porque ela sabia, ela se vestiu direitinho. Que importava? O sapateiro tinha, enfim, seu carro, na vila de pobres iguais em meio a alguns menos pobres, como a professora do SENAI que se vestia como nos anos 40, batom vermelho transbordando a boca pequena, roupas beges ou pretas, colar de pérola, salto Luis ZV, cabeça baixa, cumprimentos discretos, criando o filho sem amizades na vila.

A loucura pelo Colorado, a tarde de sol em que me levou até o Estádio dos Eucaliptos, eu perdida naquele mar de homens rudes, gritando e ele depois rindo e contando pra minha mãe e todos que eu tinha falado o tempo todo no Titico, grande jogador. Os dentes alvos e firmes dele, o almoço devorado em segundos, barulho de carne sendo triturada, a mãe dizendo “mastiga a comida, não come tão ligeiro, nem sente o gosto, que coisa!”, o prato de batata doce com leite, a sobremesa possível na casa mantida por uma contabilidade de caderno com orelhas em que ele marcava saltinhos, sola-inteira ponteada, meia-solas, pintura, costura.

Mão pesada, a falta das digitais por causa dos machucados no corta-corta de couros e solas, mais silêncios que longas conversas, as noites de verão com rádio de baquelite na cozinha, contando histórias, notícias, as risadas diante de Pinguinho e Walter Broda, “entra prrrreguinho desgraçado”, e ele ria do deboche do sapateiro do programa, eu sentada fazendo a lição e rindo com ele e a mãe secando louça e rindo. A mesma risada sacudida de hoje, quando Docinho e Occhi chegam. Apesar dos passos trôpegos. Apesar das dores nos ossos. Apesar da coluna vergada, do olhar vago de tantas vezes, das exclamações lastimosas, dos gritos de raiva. A risada que não vou e não quero esquecer. Parabéns, seo Waldemar. 83 anos.

Autor

Maristela Bairros

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