Como estou sempre mencionando nesta coluna, o futebol mudou drasticamente nas últimas décadas (em especial nas duas últimas décadas). Virou um espetáculo, movimentando milhões de euros, dólares e reais. E os grandes atores deste espetáculo são eles, os boleiros (é o termo utilizado no ambiente do futebol para denominar os atletas profissionais) ou jogadores.
Porém, a exemplo do que ocorreu nas outras áreas de negócios do futebol (patrocínios, direitos de transmissão, veículos de comunicação, material esportivo, etc), igualmente os atletas(falo aqui dos atletas brasileiros) ainda estão se organizando, para fazer frente aos novos desafios do mercado esportivo.
Normalmente, o jovem atleta começa a despontar (hoje, são cooptados cada vez mais cedo) e faz um contrato com um empresário de jogadores de futebol. Este empresário lhe dá uma ajuda de custo e, em contrapartida, fica detentor dos direitos do atleta. Se a coisa começa a evoluir, o empresário dá uma casa para a família do jogador (não vamos esquecer que no Brasil, geralmente os jogadores de futebol são de origem humilde) e mais uma grana por mês. No caso de o jogador confirmar suas virtudes e ser transacionado, é o empresário do atleta quem conduz as negociações e recebe um comissionamento pela realização destes negócios.
O que não está contemplado neste novo momento do futebol é que estes atletas precisam ser assessorados em suas ações e conceitos. Estamos falando de formadores de opinião. Suas atitudes e declarações impactam milhões de pessoas ao redor do mundo. Crianças seguem seus exemplos (bons ou eventualmente ruins). Assim sendo, precisam ter conceitos enraizados de cidadania, de forma a serem indutores de práticas solidárias, amplificadores de noções de seriedade e civilidade.
Além disto, estes atletas devem ser treinados para que saibam dominar o aparato tecnológico existente, tanto sabendo conceder uma entrevista, dominando o(s) idioma(s), utilizando as novas tecnológicas e sabendo explorá-las em sua plenitude.
Mais ainda: devem ser acompanhados por psicólogos, psiquiatras e/ou assistentes sociais, de forma a que, caso consigam um grande contrato (que mude drasticamente suas vidas no aspecto financeiro), tenham condições de lidar com esta nova realidade. Este é um fenômeno relativamente comum no universo do futebol (um jogador estar ganhando 10 mil reais em um mês e ser negociado e passar a ganhar R$ 300 mil em outro), mas que mexe profundamente com a cabeça de qualquer um. Não é fácil de um momento a outro ser catapultado pela fama, passando a faturar em salários, contratos publicitários e também assédio de fãs. É preciso orientação, aconselhamento, reflexão.
Há ainda outro aspecto – este coletivo – da vida dos atletas. Recentemente, os jogadores espanhóis fizeram uma greve, em função do momento econômico por que passa seu país. Tinham receio de não receber seus salários. Esta consciência coletiva, esta união de forma cooperado é algo muito distante da realidade dos jogadores brasileiros. Porém, também esta organização em torno de uma entidade que os represente, marca a evolução da categoria. Uma subida de nível, de degrau, no caminho da profissionalização. No Brasil, os jogadores tratam de suas carreiras de forma totalmente individual. Quando se conscientizarem de que são os grandes atores deste espetáculo e que, unidos, têm ainda mais força, passarão a um estágio mais elevado e a um patamar superior.
Todos estes aspectos que mencionei acima são relativos a nova realidade dos jogadores de futebol. Seus novos desafios nesta carreira tão breve, mas que pode ser bem mais longa (um planejamento de carreira bem feito pode significar a perenidade da imagem do atleta mesmo depois de ele “pendurar as chuteiras”), lucrativa, relevante e principalmente representativa para a sociedade. Está na hora de uma reflexão profunda e séria sobre o novo papel dos jogadores.

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