Estava eu passeando pela internet em busca de um assunto mais ou menos palatável para esta croniqueta de fim de semana, cansada que estou de dar murro em ponta de faca, de perder supostos amigos por mostrar, sem medo e dentro do meu direito de ser humano, o que penso e coisa e tal. Abro o site da Folha de São Paulo e vejo a palavra “Estrebucha”, com ponto de exclamação, e o link para o vídeo com alerta de cenas fortes.
Segui o link e ainda pensei, do alto da minha cisma habitual, depois de ler a matéria: ah, quem garante que não é um hoax? Pois agora estou tonta e com náusea, meu coração disparado, mal consigo escrever este texto e o faço pensando só uma coisa: de que vale esta vida em que temos acesso a tudo, praticamente na hora, sem que possamos mudar uma vírgula na atitude dita civilizada de ser?
Não precisa ser um Kadafi pra ser bandido, não precisa ter poder de alto coturno, nem ter uma arma na mão. Esta crueldade exibida supostamente por policiais diante de um homem que agoniza, espumando, olhar esgazeado, no chão, baleado por eles, é a mesma do peão que quebrou o pescoço do bezerro durante uma diversão chamada rodeio, que enche os bolsos de tantos na cidade de Barretos e em tantas mais.
É a mesma crueldade dos celebrados toureiros mundo afora que, eventualmente, são espetados pelos touros enquanto o circo pega fogo em volta de tanta adrenalina. Para continuar no mesmo nível de crueldade envolvendo estes mesmos animais, a crueldade é a mesma dos “pobres que não têm como se divertir, coitadinhos” da farra do boi. E os que promovem brigas de galo, de cães. Os que “empregam” cachorros como guardas, e os deixam sem água, na chuva, no frio ou no calor, nestas empresas que ninguém sabe quem fiscaliza e que proliferam por todos os cantos, em nome da segurança.
Há muitos anos, quase 30, morei em uma rua que tinha, como tantas neste mundo, vigilância particular. Uma noite, acordei com gritos e corri à janela e vi, justamente abaixo do poste de iluminação, o “guardinha” da rua em pé diante de um homem caído, que chorava e gemia. Sonolenta, acordada no susto, levei alguns minutos para entender a cena, principalmente quando vi a arma na mão do homem em pé e ouvi ele dizer: tu vai morrer, sim, enquanto o outro implorava que não deixasse ele morrer. No dia seguinte, vi a notícia de que um suposto assaltante havia morrido a caminho do hospital, baleado no estômago. O guarda, quando lhe perguntei o que tinha acontecido, me mostrou a mão enfaixada, dizendo que havia sido esfaqueado e que tinha dado um tiro “na perna” do “bandido”.
Eu havia enterrado este fato no fundo da memória e agora me pergunto se ele aconteceu mesmo. É tão horrível ver uma cena destas quanto saber que ela é real. Hoje, prefiro pensar que sonhei.
