Nada melhor que uma náusea, uma dorzinha fina de barriga, uma zonzeira mesmo após uma boa noite de sono, pra nos recolocar na vida, nos mostrar o que realmente vale. Aqueles bocejos diante do monitor são a placa de atenção da natureza pra nossa arrogância de seres superiores, capazes de raciocínio lógico, de decisões razoáveis. Os roncos intestinos funcionam como o beliscão que nos acorda dos devaneios de olhos bem abertos. E não tem láurea de doutor honoris causa que dê jeito: humanos, falíveis, frágeis, sujeitos até mesmo à ação do tempo, da temperatura, das fases da lua. Isso é o que somos.
Para uma sexta-feira, esta é uma conversa chata. Para quem ainda encara o fim de semana como um abençoado hiato entre a semana útil que termina e a que vai começar na segunda, este texto é ainda mais absurdo, entediante, sem sentido. E para quem já descobriu que todos os dias são iguais, é uma escrita vazia, repetitiva, anódina.
De modo que melhor seria falar na imagem da mulher andando em alguma rua de alguma cidade da parte de cima do globo e que se vê num relance, num dos múltiplos noticiários de televisão. A mulher que caminha empunhando um guarda-chuva para se defender do sol, do calor. E não é uma velhinha que anda lenta, que enxuga o suor do rosto e do pescoço com um lencinho bordado e com rendas em volta. É uma mulher jovem, com seu notebook na outra mão, andando a passos largos e apressados.
Ou o tema poderia ser o novo ministro, deste governo estilo espeto rotativo, que enche a mesa de comidas diferentes, mas que têm, todas, o mesmo maldito tempero. O político de olhar de mormaço, voz de radialista, topete a la Elvis, frasista sem efeito, navegante das águas da ideologia do oportunismo. Ou não, como diria Caetano. Quem sabe fará a tal diferença? Mas dá pra ter esperança com alguém que usa, como justificativa para ter sido escolhido e razão para ser aceito, ter nascido num lugar que já nem é mais tudo aquilo em bois e plantações?
O diabo é conter os bocejos, a pressão baixa que dá um desânimo cruel, segurar a preocupação com coisas banalmente mais importantes do que qualquer queda da bolsa ou discurso (mais um!) do Obama (que está ficando pior que Fidel Castro em sua ânsia de aparecer) e que de fato movem a vida. A tia que era andeja, vigorosa, crítica inclemente e que, aos 90 anos, teve de operar a perna depois de um tombo inexplicado. O pai oitentão que vai para a cirurgia porque a quimioterapia já deu o que tinha que dar. O amigo mal chegado nos 50 anos que teve um infarto enquanto baixava o pai cardiopata no hospital e que terminou com quatro safenas e uma mamária. O diretor de teatro que nem chegou aos 60 e que passou o fim de semana incomunicável e foi encontrado morto no domingo. Essas, as tragédias rodrigueanas do dia a dia, nos mostram que viver está muito além do nosso jardim de convicções e intelectualidades.
E, por favor, contenham os bocejos, porque eu já não consigo mais nem escrever, tamanho o misterioso tédio desta sexta-feira.
