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A Academia e o fiofó da gente

Me mandaram um vídeo de um jornalista reclamando da Academia Brasileira de Letras, que deu uma medalha a Ronaldinho Gaúcho por serviços prestados. Eu …

Me mandaram um vídeo de um jornalista reclamando da Academia Brasileira de Letras, que deu uma medalha a Ronaldinho Gaúcho por serviços prestados. Eu tinha lido a respeito na época e arquivado na seção de burlescos pátrios. Mas o que me chama a atenção é que haja gente que ainda leva a Academia Brasileira de Letras a sério. Como, se ela é composta, em sua grande maioria, por ineptos, ou coisa pior, como no caso do Sarney?

Vocês preferem digerir uma medalha dessas ou um prêmio de 50 mil reais? Lembrem a polêmica do ano passado sobre o prêmio de tradução dado por Carlos Nejar, Ivan Junqueira e Ivanildo Bechera a Milton Lins pelo livro “Pequenas traduções de grandes poetas”. Muita gente chiou, como Jorio Dauster e Ivo Barroso, porque Milton Lins comete uma enfiada de erros ridículos. Pinço dois exemplos da brilhante tradução, apontados pela Denise Bottmann, tradutora que tem o blog Não gosto de plágio: no poema “Zona”, de Apollinaire, a expressão “les hangars de Port-Aviation” (os hangares [do aeroporto] de Port-Aviation) vira “o hangar de algum Porta-Avião”; uma escolha “infeliz” de Lins: em “Vénus anadyomène”, de Rimbaud, o verso “Belle hideusement d’un ulcère à l’anus” se transforma em “Tem úlcera — que horror! — ao pé do fiofó”.

É isso aí. Haja fiofó pra aguentar a sapiência desses senhores.

Gore Vidal e o cinema

O Vidal fez uma divisão famosa entre os trabalhadores do cinema: quem tem ambição, vira produtor; quem tem talento, roteirista; quem é bonito, ator. E o diretor? Bem, o diretor é o cunhado.

É, talvez os diretores levem crédito demais, mas são eles que organizam todo o caos, são eles que fazem o roteiro funcionar, são eles que seguram as rédeas dos atores. Um mau diretor pode estragar um roteiro genial, como um bom diretor pode tornar aceitável um mau roteiro. Um mau diretor deixa caras como Jack Nicholson e Johnny Depp soltos, fazendo mais caretas que aqueles meninos atrás do repórter, pra aparecer no Jornal Nacional.

Gringos desinformados

Gore Vidal comentando a desinformação política dos americanos: “Vou lhe contar só uma historinha. Quando concorri ao Senado, em 1982, estava em Orange County [região ultraconservadora da Califórnia, perto de Los Angeles], e uma senhora se levantou, dizendo: ‘Senhor Vidal, tenho duas perguntas. O que eu, como uma dona de casa comum, posso fazer para combater o comunismo? E minha segunda pergunta é: o que é comunismo?’”.

Vidal e a morte

Ele diz que não tem medo da morte. Tem medo mesmo é de ficar gagá. Acho que assino embaixo.

Geração zero zero

Trata-se de uma antologia organizada pelo Nelson de Oliveira. Vou abrir aspas pra dois exemplos do estilo dos novos autores que o Luciano Trigo deu numa resenha: “(…) João Filho se entrega sem limites à manipulação masturbatória das palavras (em ‘Sob o sol de lugar nenhum’: “O cheiro, a textura e o calor de todas as instâncias recônditas ou não do mundo o invadem neste minuto. Talvez o exagero da límpida simultaneidade do ápice?” (…) Whiner Fraga chama leite de ‘sumo das vacas’ (em ‘X’).”

Que instância recôndita leva alguém a escrever assim? Talvez pra chegar ao ápice. Mas isso tem remédio, meus caros: passem sumo de vaca ao pé do fiofó.

Mulheres misteriosas

Alicia Jurado: “Borges, você sempre se apaixonou por mulheres meio bobas”. Borges: “É que a inteligência é sempre compreensível, mas na estupidez há um mistério que resulta atraente”.

Autor

Ernani Ssó

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