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Tecno Retrô

De forma simultânea, as novas gerações são fissuradas no novíssimo e no antigo. Falo do mundo do futebol, ambiente do marketing esportivo. Porque se …

De forma simultânea, as novas gerações são fissuradas no novíssimo e no antigo. Falo do mundo do futebol, ambiente do marketing esportivo. Porque se os novos torcedores gastam muitos milhares de minutos abastecendo redes sociais e blogs com suas considerações, uns fazendo brincadeiras e zoando dos outros, enviam torpedos de seus moderníssimos celulares, fotos deles mesmo nos estádios em jogos importantes (ou nem tanto) para seus amigos (ou nem tanto), se criam comunidades virtuais e jogos para redes sociais, playstations e wiis, aplicativos para smartphones, este é um lado. O lado da modernidade se manifestando. Mais do que a modernidade tecnológica, a modernidade mental: simultaneidade de ações, todas juntas, ao mesmo tempo. Utilizando as mais modernas ferramentas disponíveis.

O outro lado é o lado retrô. Os torcedores cultuam seus ídolos do passado, valorizam camisetas de antigamente, fazem eventos que saúdam os feitos históricos. E, mais do que isto, há um sentimento primitivo por trás das manifestações dos torcedores: um sentimento tribalista. Somos todos da mesma tribo, estamos juntos na mesma vibração e, principalmente, somos mais fortes e maiores do que tudo e todos (este sentimento, se exacerbado, pode provocar comportamentos agressivos por parte de torcedores, uma distorção do sentimento original, se levado a cabo).

Torcedores na arquibancada de um estádio de futebol, vibrando, pulando, constituem uma verdadeira catarse coletiva. A multidão orientada para uma mesma direção se constitui em uma força poderosíssima, geradora de um sentimento de energia fortíssima. Um momento em que um grande grupo se sente autorizado a vociferar e ter manifestações que em outro momento e ambiente a sociedade não autorizaria nem veria com bons olhos. Na arquibancada, muito é permitido. O excesso é visto com vistas grossas inclusive, em vários momentos. E o que é isto senão a manifestação de nossos instintos mais primitivos e atávicos? Isto é retrô, o mais retrô possível.

Para a vida em sociedade ocorrer de forma civilizada, temos que conseguir ou reprimir nossos instintos ou direcioná-los de forma a não causar mal aos outros cidadãos ou à própria sociedade. Para a agressividade, há aqueles que utilizam a prática do esporte (fazer musculação para “derrotar” a maior quantidade de peso possível, correr para ultrapassar os limites de tempo e esforço). Outros direcionam sua agressividade para conquistas, busca de objetivos teoricamente inalcançáveis (mas que posteriormente se revelam factíveis). Ou seja, este lado mais primitivo e que estou tomando a liberdade de chamar de retrô, deve ser dominado, administrado.

Na realidade, analisar este paradoxo do tecno e do retrô no ambiente do futebol é também analisar a vida. Estamos sistematicamente oscilando entre dois extremos: se neste caso o lado tecno significa o futuro, a evolução, o novo, por outro lado o aspecto retrô representa o antigo, o já conhecido, o primitivo. Vivemos em constante administração destes dois mundos em nossas vidas pessoais: almejamos o futuro e as conquistas, alicerçando-nos no passado e no já obtido. Marketing esportivo: Freud explica.

Autor

Flavio Paiva

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