Sérgio Rodrigues, no Todoprosa, dando uma palinha da fala de João Ubaldo Ribeiro em Paraty, na festa literária: “Em primeiro lugar, acredite se quiser, eu jamais tinha chegado nem perto de um livro de Guimarães Rosa quando escrevi ‘Sargento Getúlio’. Depois cheguei perto de vários, mas Guimarães Rosa não está entre os autores do meu afeto, da minha preferência. Não no sentido de que eu o ache um autor inferior ou secundário, mas não me fala. Num casamento que eu tive, minha ex-mulher era fã de Guimarães Rosa e me deu para ler ‘Primeiras estórias’. Eu sempre tive ódio mortal a essa palavra, ‘estórias’. Abri num conto e comecei a ler: ‘A viagem fora planejada no feliz’. Pronto, eu disse (faz um gesto de fechar o livro), não leio mais nunca. E nunca mais li. Eu sei, porque pessoas da família dele me contaram, que Graciliano Ramos sofria noites em claro para fazer um diálogo verossímil no sertão, mas que não errasse pronomes. Acho que Guimarães Rosa deu um pulo gigantesco nesse sentido, libertou. Uma coisa é o meu santo não casar com o dele, e outra é a avaliação que eu faço da importância dele na literatura brasileira. Eu seria um completo desvairado se dissesse que Guimarães Rosa é um escritor menor”.
Meu santo
Pois é, o meu santo também não cruza com o do Rosa. Não sei se é um grande escritor simplesmente porque não consigo ler o homem. Na adolescência encarei um livro de contos mas não me lembro de uma linha. E essa frase citada pelo Ubaldo, minha nossa, me dá urticária apenas de olhar pra ela. Acho pura frescura, forçação de barra. É como se Rosa pensasse que seria banal dizer que a viagem foi planejada com felicidade ou alegria e tentasse ser mais expressivo. Como dizia o Borges, um dos horrores da literatura é justamente exagerar na expressividade, mania que desemboca nas frases mais idiotas e mais feias. É preciso confiar no idioma, segundo ele. Com o santo do argentino o meu cruza muito mais facilmente.
Mendigo
Um mendigo me pediu dinheiro pra comprar um remédio. Falava de um jeito todo solene e rebuscado. Pra me convencer de que o remédio não era cachaça, passou a mão na barriga e disse: “Tenho um problema no estomacal”. Isso me lembra vários autores influenciados pelo Guimarães Rosa: parecem ignorantes tentando falar difícil. Segundo um amigo do Sérgio Fantini, o Rosa não influenciou autor nenhum. Ele estuprou muitos.
Falando em influências
Não sei, mas acho que o único autor influenciado pela Clarice Lispector que eu leio é o Caio Fernando Abreu, que talvez deva mais ao Cortázar. Os outros — ou as outras, já que a maioria esmagadora é de mulheres —, depois de dois parágrafos, me levam a pedir que me segurem, porque vai me dar um troço.
Não se pense que sou contra as influências. Pelo contrário. Ninguém se forma sozinho, a tradição está aí pra isso mesmo, ser absorvida por todos, da melhor maneira possível. Devemos ser mais perigosos que os tupinambás, que comiam os inimigos pra ganhar a força e a coragem deles. Devemos comer os amigos também.
O irritante, no caso do Rosa e da Clarice, é que o pessoal absorve os cacoetes, as manias, que já são irritantes nos próprios. Isso me lembra aqueles meninos dos anos 50. Pra parecerem homens, tentavam fumar como o Bogart. Jamais adotavam as atitudes de Bogart, capisca?
Meu caso
Eu fui influenciado por tanta gente que perdi a conta. Fui influenciado até por desenhos animados. Minha voz talvez pareça própria porque passei tudo no liquidificador mais de uma vez, sem falar que disfarço o sotaque.

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